
Publicado em 21 de Fevereiro de 2026
A crise do Master mal acabou e os grandes bancos já estão na mesa do Banco Central negociando novas regras. É rápido. O rombo no FGC passou de R$ 50 bilhões, pode chegar a R$ 60 bilhões, e o discurso agora é de prudência, de responsabilidade proporcional ao risco, de evitar que prejuízos privados sejam socializados. Bonito. O problema é que prudência, quando formulada pelos incumbentes, quase sempre traz um efeito colateral conveniente: menos concorrência.
O que está sendo costurado entre Febraban, FGC e Banco Central é uma reforma regulatória que obrigaria bancos menores a contribuírem mais para o fundo garantidor na proporção do risco que oferecem. Parece justo à primeira vista. Mas a pergunta que quase não aparece é: quem define o que é risco? E, sobretudo, quem tem escala para absorver o custo adicional sem perder fôlego? Os grandes aguentam o tranco — base de depósitos ampla, capital robusto, receita diversificada. Bancos médios dependem de funding sensível a preço. Pequenos vivem de margem apertada e crescimento acelerado. Aumentar a contribuição deles ao FGC não apenas equaliza: aperta o fluxo de quem já opera no limite. Hoje, se expor ao risco ainda é bom negócio. A proposta quer alterar essa equação. E quem tende a atravessar essa transição são os que já têm tamanho.
A discussão vai além. Querem que as plataformas que distribuem CDBs de bancos pequenos passem a ter obrigações adicionais de certificação e transparência. De novo, razoável na aparência. Mas essas plataformas são justamente o canal que permite aos bancos menores competir pela captação. Sem elas, o dinheiro do investidor naturalmente retorna para os mesmos de sempre. As plataformas hoje ganham comissões elevadas e não assumem risco direto — isso é fato. O ponto é que o remédio sugerido não corrige apenas essa distorção. Ele também encarece o principal mecanismo de acesso ao mercado para quem não tem agência bancária em cada esquina do país.
O movimento não é novo. Em momentos de crise, regulador e grandes instituições tendem a convergir. Não por conspiração, mas por lógica institucional. O Banco Central busca previsibilidade. Os bancões buscam mercado. E previsibilidade sistêmica, na prática, significa reduzir modelos que escapam ao padrão dominante, diminuir experimentações e limitar expansões fora do script. Daniel Vorcaro dizia que era perseguição, que os grandes não queriam concorrência. Estava errado sobre a gestão do próprio banco — mas talvez não estivesse completamente equivocado sobre os incentivos do setor.
O Master errou feio. Operou mal, assumiu riscos desproporcionais, ignorou alertas e levou outras instituições na queda. Nada disso está em discussão. O ponto é outro. Transformar o erro de um em parâmetro para redesenhar o ambiente competitivo de todos é uma decisão que vai além da prudência.
O caso Master foi o gatilho. O movimento em curso, porém, é maior do que um banco quebrado. Ao redefinir o que é risco aceitável e quem deve pagar por ele, o sistema também redefine quem pode crescer. O discurso será de proteção ao depositante. O efeito provável é reforçar a concentração em um sistema que já figura entre os mais concentrados do mundo.
Quem escreve a norma organiza os incentivos. E quem organiza os incentivos acaba definindo, silenciosamente, quem permanece relevante no mercado.