Quando o fracasso sobe à cabeça

Publicado em 04 de Março de 2026

Não deixa de ser impressionante como a primeira década do século XXI parece não ser inteligível para os supostos analistas políticos do jovem movimento direitista. A primeira década dos anos dois mil consolidou o petismo como movimento político hegemônico no Brasil, ascendendo através do crime e com a conivência de órgãos de mídia, partidos de centro fisiológico e do tucanato.

Tucanato esse que viveu uma estranha forma de fracasso: sempre perdendo em momentos decisivos para o PT, mas monopolizando a oposição ao petismo, vivendo de afetação pseudovirtuosa em debates presidenciais, entrevistas para a revista Veja e jantares na Faria Lima.

Enquanto o petismo articulava as estruturas de partido ilegal com partido oficial e roubava bilhões para financiar o movimento comunista internacional, podia sempre contar com as denúncias dos tucanos contra os gastos públicos excessivos, roubos miúdos para bancar luxos e amantes, enquanto o povo brasileiro era literalmente exterminado e dominado pelo crime organizado fortalecido pelo PT.

O tucanato jamais atacou as verdadeiras estruturas de poder que sustentavam o petismo; nunca foi uma oposição real ao projeto bolivariano; pura e simplesmente encarnava, em escala nacional, a autocontradição do projeto de sociedade aberta globalista, empenhado em realizar, com os meios do liberalismo, a sociedade mais coletivista e dirigista que já se imaginou, e em preservar a propriedade privada mediante a regulamentação e tributação de tudo o mais.

Um exemplo de seu modo de ser é a peculiar articulação lógica que montou entre economia e educação, apostando os destinos da nação no futuro do capitalismo ao mesmo tempo que dificulta o acesso aos bens fundamentais para o desenvolvimento da inteligência na primeira infância — note-se que São Paulo, governada por anos pelo PSDB, ainda não universalizou o saneamento na capital, onde favelas não têm esgoto, água potável, proteínas e segurança; ou seja, aposta no capitalismo de mercado enquanto elimina a possibilidade de uma população produtiva.

Essa confusão mental não é qualquer atrapalho para o avanço de sua agenda e o cumprimento de seu papel social como falsa oposição ao petismo — é claro, enquanto o Partido dos Trabalhadores se mantiver leal aos seus compromissos com banqueiros, globalistas e o complexo de ONGs do Diálogo Interamericano —, pois basta seguir os comandos e repetir as teses dos papas do liberalismo globalista.

Para o tucanato, não há qualquer desvantagem em aproveitar a insatisfação do povo para com o petismo para construir carreiras políticas, ocupar cargos públicos de eminência e construir uma rede de contatos e acessos para facilitar ou dificultar a vida de empresários. Mas o bolsonarismo pode se dar o luxo de repetir os mesmos fracassos?

Os quadros bolsonaristas, uma vez eleitos para cargos públicos, mantêm o povo inflamado para a luta anticomunista — sempre recusando-se a formalizar, organizar e instruir uma militância, para tentar reequilibrar a disputa na esfera política —, mas seguem arranhando apenas a superfície do aparato de poder do PT.

Se o objetivo dos bolsonaristas é realmente mudar o Brasil, não é tolerável utilizar fórmulas de oposição inofensiva; é igualmente criminoso repetir os erros do tucanato alegando ser seu inimigo mortal. Será que, para alguns bolsonaristas, esse confortabilíssimo fracasso subiu à cabeça?

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