
Publicado em 31 de Março de 2026
O governo fez aquilo que Brasília costuma fazer quando não quer enfrentar um problema de verdade: trocou solução real por maquiagem financeira. Em vez de atacar o custo de vida, abrir concorrência séria no sistema bancário e criar condições para a renda crescer de fato, preferiu vender crédito como se isso fosse política social. Só que crédito caro não é cuidado com o trabalhador. É apenas uma forma politicamente útil de empurrar a conta para depois.
Os números do Banco Central falam por si. O consignado privado para trabalhadores com carteira assinada chegou a uma taxa média de 59,4% ao ano em fevereiro. O rotativo do cartão de crédito — aquele saldo que sobra quando a pessoa paga menos do que o valor total da fatura — continua em um nível absurdo: 435,9% ao ano. A inadimplência sobe, o endividamento das famílias cresce e uma parte cada vez maior da renda vai direto para pagar juros. A promessa era ampliar o acesso ao crédito. Na prática, o que se ampliou foi a dependência dele.
A contradição aparece logo depois. O mesmo governo que estimulou esses mecanismos agora surge dizendo que está preocupado com seus efeitos. Primeiro empurra o cidadão para a dívida. Depois aparece anunciando estudos, reuniões e propostas para tirá-lo do imbróglio. Isso não parece erro. Parece método.
O roteiro é simples. Primeiro, o crédito é apresentado como ferramenta de inclusão e alívio imediato. Na prática, ele serve para sustentar consumo no curto prazo sem mexer na estagnação da renda e sem enfrentar reformas econômicas de verdade. Depois, quando a inadimplência sobe, as parcelas apertam e o eleitor começa a reclamar, o discurso muda. A propaganda do acesso ao crédito perde espaço e entra a fala oficial sobre preocupação com o endividamento. Quem ajudou a montar o problema tenta aparecer como quem vai resolvê-lo.
Nem as medidas vendidas como solução escondem isso. A regra conhecida como “muro inglês”, que impede a dívida do rotativo de ultrapassar o dobro do valor original, não atacou a raiz do problema. Só tentou limitar o estrago. Quando o próprio presidente do Banco Central chama os juros do rotativo de punitivos, fica difícil fingir que pequenos ajustes vão resolver a situação. Não vão. O problema é mais profundo.
E há um componente político evidente. Em ano eleitoral, a preocupação com o endividamento não nasce do nada. O governo sabe que a inflação pesa no humor do eleitor, que os juros pesam no bolso e que a dívida acumulada pesa na aprovação. Por isso aparecem grupos de trabalho, anúncios e promessas de revisão. Não porque o diagnóstico seja novo, mas porque a conta começou a chegar também na política. O roteiro é conhecido: cria-se o problema, administra-se a narrativa enquanto dá e, depois, veste-se a fantasia de solução.
No fim, quem paga essa conta é a classe média e o trabalhador formal. O salário deixa de ser apenas renda e vira garantia para o banco. Os bancos ganham um devedor mais seguro. O governo ganha algum fôlego no curto prazo. E a família brasileira fica com o aperto no fim do mês e com a velha promessa de que mais crédito vai resolver o estrago causado justamente pelo crédito caro. Pode-se chamar isso de política econômica. Mas o nome mais honesto é outro: gerenciamento eleitoral do endividamento.