
Publicado em 26 de Janeiro de 2026
A imprensa corporativa acusa Donald Trump de ser o responsável direto pelo caos e pela anarquia instaurados na política internacional. Segundo os funcionários dos conglomerados de mídia, sua ascensão ao poder teria rompido uma ordem global relativamente estável, substituindo regras por arbitrariedades e cooperação por conflito. Trump é apresentado como o agente que teria corroído alianças tradicionais, desmoralizado instituições multilaterais e desmontado acordos que garantiam previsibilidade política, econômica e estratégica.
Mesmo que “estabilidade” seja neutralidade da autodeterminação das nações, e as instituições multilaterais sejam o centro de comando da burocracia globalista, a grande mídia insiste que a instabilidade atual — do comércio internacional à possibilidade de uma grande guerra — seria consequência direta de suas escolhas, tratadas como uma ruptura pessoal e ideológica com a ordem baseada em regras. Bem, essa acusação dá a entender que a globalização e o projeto de sociedade aberta estavam funcionando e que bastaria a remoção de Trump para que a anarquia cessasse e retornasse a ordem.
O grande problema é que a ordem internacional baseada em regras não começou a se desintegrar com Trump, ou por sua causa; ela já vinha sendo corroída por dentro, à medida que a globalização deixava de produzir benefícios simétricos e passava a impor custos crescentes aos Estados nacionais. O processo de desglobalização emerge quando cadeias produtivas excessivamente dispersas se tornam vulneráveis, quando a interdependência econômica passa a representar risco estratégico e quando o consenso político imposto após Bretton Woods, que sustentava a abertura irrestrita, já não faz mais sentido. Antes de Trump, a economia já estava sujeita ao interesse de Estado e à segurança nacional nos países desenvolvidos, a cooperação multilateral já mostrava sinais de desgaste e a projeção de poder dos EUA, que sustentava o projeto de uma comunidade global, já não tinha mais meios para se manter. A política de Trump não inaugura esse cenário; ela apenas abandona as tentativas de preservar ou remediar o sistema burocrático e rentista do mundo baseado em regras.
A desglobalização consiste, essencialmente, na reorganização do sistema internacional a partir de critérios baseados em interesses de Estado, segurança, soberania e independência, e não mais de eficiência abstrata proposta pelo liberalismo. Estados passam a priorizar cadeias produtivas regionais, controle de tecnologias sensíveis e autonomia estratégica. O comércio deixa de ser um fim em si mesmo e se subordina a cálculos de poder. Instituições multilaterais perdem centralidade porque já não conseguem arbitrar conflitos reais entre interesses nacionais divergentes. Nesse cenário, políticas consideradas “disruptivas” são, na prática, reações a um ambiente que já não comporta a globalização como projeto universal.
Ao atribuir a Trump a culpa pela ruptura da ordem internacional baseada em regras, a grande mídia tenta cultivar a ilusão de que o sistema anterior poderia ser mantido ou remediado. Mas a verdade é que a globalização era insustentável e colapsou por sua desconexão com a realidade política e econômica. Trump não a destruiu; apenas expôs, sem disfarces, o fim de um ciclo histórico e a transição para um mundo menos integrado, mais competitivo e orientado por interesses de Estado.
Não há destruição, apenas a queda da máscara.
Uma ode à anarquia de Trump, que não é destruição devassa e imprudente, mas abandono da ilusão e da farsa.