O Vandorismo de Sapatênis

Publicado em 27 de Janeiro de 2026

No Brasil, a lealdade dura exatamente o tempo de um story no Instagram. O país viu essa semana o espetáculo da “caminhada” de Nikolas Ferreira, uma peregrinação supostamente em nome da liberdade de Jair Bolsonaro e dos presos políticos do 8 de janeiro – mas, para quem tem olhos de ver, o que se desenrolou foi na verdade o ato de lançamento oficial do movimento oficial da direita sem votos, o “Bolsonarismo sem Bolsonaro”.

Nos anos 60 a Argentina, com Juan Perón no exílio, viu o líder sindical Augusto Vandor surgir com uma ideia brilhante: criar um “Peronismo sem Perón”. A ideia era manter a massa, a mística e os votos, mas descartar o velho, substituindo a lealdade pessoal (que é a base da política ibérica e católica e, portanto, da latinoamericana) por uma estrutura burocrática e “eficiente”, coisa de CEO. Vandor queria gerir o espólio político do líder vivo como se este já fosse um cadáver.

Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas e seus parceiros são os nossos “Vandores” modernos. O que Nikolas fez ao caminhar centenas de quilômetros não foi “carregar a cruz” de Jair, mas tentar pegá-la para si como se toma a coroa de um rei deposto. O silêncio sobre Flávio Bolsonaro, o herdeiro designado pelo próprio Jair para 2026, é a prova: Flávio, com todos os seus defeitos, carrega o DNA, a legitimidade da carne e do sangue, o princípio dinástico que o povo brasileiro, intuitivamente monarquista, compreende e respeita. Flávio é a extensão política da pessoa de Jair.

Mas a nova direita de sapatênis, que aprendeu a lacrar na internet mas tem nojo de ser do povo, quer transformar o Bolsonarismo numa abstração. Eles querem transformar Jair Bolsonaro num “Indivíduo” liberal, numa ideia platônica de liberdade que pode ser descolada do homem real e transferida, via marketing digital, para um influencer ou um tecnocrata.

Ao ignorarem Flávio – que aliás torceu, divulgou e clamou aos seus seguidores que apoiassem a caminhada, tentando manter a unidade – a direita antibolsonarista cometeu o pecado capital da política: a traição. Eles tratam a sucessão política como se fosse um processo seletivo, ignorando a vontade expressa do dono do carisma e dos votos. Isso é a mentalidade liberal em sua essência: a substituição da lealdade e do vínculo orgânico pela eficiência e pelo sucesso numérico.

A história foi implacável com o Vandorismo. O Peronismo só se reunificou quando o Velho voltou e Augusto Vandor foi vítima da divisão que ele mesmo fomentou. 

O Brasil não é a Suíça, aqui, as eleições funcionam na base do carisma, do afeto e da lealdade. O povo brasileiro sabe quem é o dono da bola.

Tarcísio, Nikolas e companhia acreditam que podem herdar os votos de Jair matando-o politicamente em vida, isolando seus filhos e criando uma “direita permitida” pelo sistema. É uma aposta fadada ao fracasso porque, ao tentarem criar um movimento higienizado dos “extremos” da família Bolsonaro, eles estão criando apenas mais uma extensão do Centrão com uma estética messiânica.

Jair Bolsonaro pode estar preso, mas é ele quem detém o capital político, e Flávio é o portador desse anel. Quem tenta arrancar o anel do dedo do herdeiro enquanto o pai sangra na cadeia não é um aliado, é um abutre vestindo camisa da seleção. E se há algo que o brasileiro despreza mais do que político corrupto, é o amigo da onça que cresce o olho na herança antes do velório acabar.

A realidade é que a “liberdade” que Nikolas gritou na estrada não incluía a liberdade de Jair escolher seu sucessor. Foi um grito de “O Rei está morto, longa vida a Mim”. Mas em Brasília, assim como em Roma, quem apunhala César eventualmente descobre que atacar quem é popular não o faz apto a sentar no trono.

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