
Publicado em 20 de Janeiro de 2026.
Créditos de carbono passaram a ser apresentados como solução moderna para problemas complexos. Sob o rótulo da transição energética, esse instrumento deixou o campo ambiental e foi incorporado à engrenagem financeira como se representasse valor econômico verificável. O discurso promete eficiência, sustentabilidade e inovação. O que não entrega é clareza sobre risco, mensuração e responsabilidade.
A questão central não é semântica nem ideológica. É econômica. Créditos de carbono não funcionam como ativos produtivos. Não geram bens, não ampliam capacidade instalada, não criam fluxo de caixa autônomo. Seu valor depende de construção normativa, aceitação institucional e manutenção de um consenso político regulatório. Um ativo cuja existência econômica está condicionada à narrativa que o sustenta e à permanência das regras que lhe dão suporte.
Ainda assim, esse tipo de crédito passou a influenciar avaliações empresariais, estruturas de financiamento e decisões de investimento. Em vez de reduzir risco ambiental, o sistema passou a redistribuir risco financeiro, empurrando para dentro dos balanços ativos de difícil mensuração, pouca transparência e liquidez incerta. O problema não é episódico nem marginal. É de desenho.
A opacidade não surge como efeito colateral. Ela cumpre uma função. Quanto menos transparência houver sobre como esses créditos impactam balanços, garantias e premissas de valuation, mais fácil se torna expandir o mercado sem enfrentar o teste da precificação real. A ausência de disclosure específico não fortalece o sistema financeiro. Apenas adia o ajuste.
O conforto institucional reforça essa dinâmica. Reguladores tratam o tema com cautela excessiva, auditorias operam dentro de parâmetros estreitos e o debate público se desloca para slogans ambientais, evitando perguntas contábeis elementares. O resultado é um mercado que cresce antes de ser plenamente compreendido, sustentado mais por alinhamento político e reputacional do que por fundamentos econômicos sólidos.
Nesse formato, a transição energética deixa de ser política ambiental e passa a operar como engenharia financeira. Em vez de induzir investimento produtivo ou inovação tecnológica, abre espaço para ativos abstratos, promessas futuras e valorização ancorada em expectativa regulatória. O risco climático não desaparece. Ele apenas se converte em risco financeiro difuso, distribuído de forma pouco visível.
E há um elemento pouco discutido. Ativos cuja precificação depende fortemente de consenso institucional resistem mal às mudanças de cenário. Alterações regulatórias, revisões metodológicas ou simples perda de credibilidade podem provocar reprecificações abruptas. Quando isso ocorre, o ajuste raramente é ordenado ou equitativo.
A história do sistema financeiro mostra que modelos baseados em ativos dessa natureza funcionam enquanto o consenso se mantém. Quando ele se rompe, o ajuste costuma ser rápido, assimétrico e custoso. Não é abstração teórica nem exercício retórico. É recorrência histórica.
A pergunta que precisa ser feita não é se o crédito de carbono é bem intencionado, mas se o sistema financeiro está preparado para absorver o risco que ele cria. Enquanto essa pergunta continuar sendo evitada no debate público, o silêncio seguirá sendo o principal mecanismo de sustentação desse mercado.