O mundo mudou. Os liberais brasileiros pararam nos anos 1990

Publicado em 27 de Julho de 2026

Por três décadas, parte dos liberais brasileiros repetiu uma fórmula: arrumar as contas, abrir a economia, privatizar e deixar o capital decidir o resto. Planejamento era atraso. Política industrial era lobby. Ativo estratégico era apenas uma desculpa para escolher vencedores.

A crítica ao velho Estado brasileiro tinha razão. Houve desperdício, proteção sem produtividade, subsídios eternos e empresas capturadas pela política. O erro foi transformar essa reação em dogma. Ao rejeitar um Estado que pretendia fazer tudo, passamos a defender outro incapaz de pensar no longo prazo.

Só que o mundo real não obedeceu à cartilha.

O FMI mostra que os fundos soberanos já administram mais de US$ 16 trilhões, contra cerca de US$ 3 trilhões em 2008. Seus mandatos avançaram da poupança e da estabilização fiscal para infraestrutura, tecnologia, desenvolvimento econômico e política industrial.

Não é uma conversão estatista do FMI. É o reconhecimento de algo que as grandes potências nunca esqueceram: capital, energia, tecnologia e infraestrutura também são instrumentos de poder.

O artigo relaciona a expansão desses fundos à fragmentação geopolítica e à busca por mais autonomia e resiliência. Singapura, Indonésia e Emirados adotaram modelos diferentes, mas todos organizaram capital em torno de objetivos nacionais.

Nenhum deles aboliu o mercado. Apenas não entregou ao mercado todas as decisões sobre o próprio futuro.

No Brasil, porém, ainda discutimos como se as únicas alternativas fossem estatizar tudo ou não planejar nada. Quando um fundo estrangeiro compra participação em empresas, portos, energia ou tecnologia, chamamos de investimento. Quando se fala em organizar interesses brasileiros, surge a acusação de intervencionismo.

A estratégia dos outros entra no país com aparência de neutralidade. A possibilidade de termos uma estratégia própria é tratada como ideologia.

É aí que os liberais brasileiros erram. Capital não circula num vazio político. Tem origem, regras, proteção jurídica, relações diplomáticas e objetivos. Um investimento pode buscar retorno financeiro e, ao mesmo tempo, ampliar a influência, a segurança econômica e as opções do país de origem.

Não basta dizer que o Estado brasileiro funciona mal. O artigo do FMI alerta para mandatos vagos, captura política, cofres paralelos e falta de fiscalização. Sua resposta não é eliminar esses instrumentos, mas submetê-los à lei, à transparência, a deveres fiduciários e ao controle público.

Os liberais acertaram ao exigir disciplina fiscal, concorrência, governança e limites ao poder. Erraram ao imaginar que esses princípios tornariam desnecessária uma estratégia nacional. Regras são essenciais, mas não escolhem prioridades. Mercados alocam recursos, mas não decidem sozinhos quais dependências um país pode aceitar.

Energia, defesa, infraestrutura, alimentos, minerais críticos e tecnologia não são mercadorias comuns. Uma decisão pode ser eficiente para o balanço de uma empresa e desastrosa para a autonomia nacional. Uma venda pode produzir caixa hoje e vulnerabilidade amanhã.

A escolha real não está entre Estado e mercado. Está em combinar iniciativa privada, capacidade estatal, capital e governança para defender objetivos nacionais sem repetir os vícios do passado.

O mundo já fez essa escolha. O Brasil continua discutindo rótulos herdados dos anos 1990. Um país sem estratégia não fica neutro. Vira parte da estratégia dos outros.

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