
Publicado em 1º de Janeiro de 2026
É a primeira vez na história da humanidade que há todo um complexo de instituições e profissionais, hoje chamado de “mídia”. A mídia é o que está entre a realidade e o espectador — é um meio, quase um telescópio pelo qual pessoas típicas da sociedade de massas podem ter uma relação indireta com o mundo — e apresenta o mundo por meio de correspondentes, articulistas e editoriais.
Um dos efeitos do sucesso desse complexo de manipulação de informações e fatos é que a opinião pública não julga os males pela sua gravidade objetiva, mas pelo destaque que recebem na mídia. No debate público nacional — e, em parte, no internacional também —, velhinhas presas sem o devido processo, a tentativa de supressão ditatorial de um movimento político e uma crise institucional que deformou o papel dos poderes da República, são menos escandalosos do que contratos milionários com parentes de autoridades, envolvendo o banco de um empresário de cabelo lambido.
Isso é assim pela simples razão de que a quase totalidade das pessoas não tem como informar-se de fonte direta ou simplesmente não tem acesso a opiniões contrárias às da mídia — e aqui entra a complexidade do fato de a mídia tradicional ser superior em infraestrutura, material humano e financiamento.
Quantas vezes foram retratadas e descritas como terroristas as manifestações de velhinhas, ou como ataques à democracia a indignação popular diante da promiscuidade de nossas elites? Quanto da população do Brasil consegue discernir a verdade dos fatos das narrativas palatáveis e bem articuladas desenvolvidas pela mídia?
Jornalismo não é simplesmente mentira ardilosa; é fast-food para a inteligência. O espectador não engole uma mentira crua e sem preparo, assim como uma criança não consome os corantes do cereal sem o amido e doses cavalares de açúcar.
O resultado é que opiniões e preconceitos da classe jornalística — reforçados pelos de seus irmãos siameses, o show business e a rede de educação pública — aparecem aos olhos da multidão não só como a imagem direta e veraz do mundo real, mas como a única imagem concebível. O que quer que esteja fora dos jornais e dos canais de TV está fora do universo. Claro, entre estudiosos pode-se falar de coisas que a população ignora, mas qualquer tentativa de fazê-lo ante um público maior atrairá sobre quem o fizer, o diagnóstico de paranóia, assinado pela suprema autoridade científica da mídia popular.
Enquanto existiu concorrência genuína entre os meios de comunicação, a divergência entre os pontos de vista dos vários centros formadores de opinião alertava os observadores para as falhas do conjunto, praticamente obrigando-os a conjecturar outras realidades por trás do que aparecia na mídia. De uns vinte anos para cá, três fatores — a rápida concentração da propriedade dos meios de comunicação, a uniformização ideológica dos estudantes de jornalismo, artes e letras por meio da doutrinação maciça nas universidades, e a influência crescente exercida sobre as redações pela rede multibilionária de ONGs militantes espalhadas pelo mundo — produziram um fenômeno que ainda não foi estudado como merece: a padronização mundial da opinião pública por meio da influência convergente da mídia, do show business e do sistema educacional.
Por essa razão, é possível enclausurar-se no mundo de mentirinha dos jornas, onde tudo é possível, o que inclui: golpe de Estado desarmado, grupo de guerrilha de terceira idade e normalidade institucional com a presença onipresente do Judiciário na vida pública nacional.