O mito político das veias abertas da América Latina

Publicado em 07 de Janeiro de 2026

A esquerda latino-americana transformou a academia em um oráculo! Destruiu seu papel científico e de formação humana para fazer dela uma profusão de narrativas mitológicas.

Quando acadêmicos de sociologia, economia e filosofia — ou militantes e políticos de um partido socialista — olham para a academia, não veem um centro de formação humana, mas um oráculo que confirma ou revisa as narrativas de sua mitologia política.

Nesse sentido, o marxismo não é apenas um conjunto de teses sobre economia, luta de classes ou organização do Estado, mas um modo vicioso de formar consciências, critérios morais e padrões de linguagem. Trata-se de uma cultura porque abarca um horizonte total de interpretação da realidade, no qual categorias como opressor/oprimido, progresso/reação, consciência falsa, estrutura/superestrutura passam a funcionar como reflexos automáticos do pensamento, moldando percepções antes mesmo de qualquer adesão consciente à doutrina.

Chamar o marxismo de cultura significa que ele funciona como uma religião secularizada: assim como as religiões civis da Antiguidade, oferece uma narrativa total da história, define heróis e inimigos e estabelece pecados. A política deixa de ser um campo prudencial de decisões concretas e se transforma em escatologia histórica; torna-se o campo onde se desoculta o objeto da mitologia marxista.

A narrativa mitológica geral é a da luta de classes: o opressor burguês, detentor dos meios de produção, oprimindo o proletário. Mas, na América Latina, existe uma especificação desse mito, uma dessas renovações que os oráculos acadêmicos promovem de tempos em tempos.

Um exemplo é tese central de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano: o subdesenvolvimento latino-americano não seria uma etapa atrasada do desenvolvimento, mas o resultado histórico direto de um sistema internacional de exploração que, desde a conquista europeia, organizou a região para exportar riqueza e importar pobreza. Em outras palavras, a América Latina não fracassou no processo de integração ao mundo moderno; ela foi integrada de forma funcional à prosperidade alheia.

Sob a ótica deste mito, todas as invasões militares, intervenções e conflitos com o primeiro mundo visam ao lucro ou à manutenção desse sistema de dominação. A cada intervenção do imperialismo americano, a cada milímetro que a OTAN avança para leste, a esquerda latino-americana vê o interesse econômico de burgueses contra Estados nacionais inteiros que se tornaram oprimidos.

A tese tem seu fundo de verdade: a América Latina foi forçada a primarizar sua economia e não teve o acesso à tecnologia facilitado pelo primeiro mundo; mas essa perspectiva oculta o fracasso total da esquerda em elaborar projetos nacionais para desenvolver a economia e encobre, sob o véu do lucro puro e simples, o projeto de governo burocrático mundial.

A civilidade depende de fatores econômicos, mas não vive apenas deles, e a cultura marxista que se instaurou no terceiro mundo tem sua parcela de responsabilidade na ausência de projetos nacionais de desenvolvimento. Mas esta visão reducionista impede, principalmente, que se visualize o desenvolvimento da agenda de governo mundial, que inclui também a centralização do poder decisório e a capacidade de planejar a economia mundial.

No fim das contas, a mitologia marxista é uma venda, e não uma ferramenta de análise. Uma venda que oculta o desenvolvimento da agenda de governo mundial. São os guerreiros da justiça social ocultando as ações dos megabilionários do primeiro mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *