Como o Brasil pode se reposicionar como potência produtiva e comercial

Publicado em 29 de Novembro de 2025
Em um mundo em plena desglobalização, em que grandes potências insistem em pregar “livre mercado” enquanto blindam seus setores decisivos com tarifas, controle tecnológico, financiamento público e padrões técnicos que viram barreiras, um país que renuncia a construir capacidade produtiva interna não escolhe eficiência: escolhe dependência. Para o Brasil — considerando seu potencial de produção, extensão territorial e densidade populacional —, política externa e política industrial precisam estar alinhadas, ainda que por duas perspectivas: por dentro, organizar as forças produtivas por meio de uma harmonia de interesses entre agentes econômicos; por fora, ampliar poder de negociação, reduzir vulnerabilidades e transformar os corredores econômicos em meios para a construção da soberania nacional.
Tudo isso começa por uma decisão política: escolher poucas capacidades estratégicas e tratá-las como compromisso de Estado, com metas, prazos e disciplina. Bens de capital e máquinas; química e materiais; saúde e farmacêutica; defesa; infraestrutura e mobilidade; digitalização industrial e automação; refino e metalurgia avançada; processamento sofisticado do agro e da mineração — para que a riqueza deixe de sair como matéria-prima e volte ao mercado interno como importação.
Diante dessa seleção, é preciso proteger e estimular, sem lobbies e patrimonialismo, mas como contrato de harmonia entre interesses: apoio temporário atrelado a investimento, aprendizagem, produtividade e metas de competitividade. Quem não entrega perde acesso, e quem entrega ganha escala.
Para evitar captura e rentismo, o Estado precisa de governança lúcida, transparência e avaliação política — distante da neutralidade da ortodoxia econômica do Consenso de Washington —, separando apoio à capacidade produtiva de mera transferência de renda setorial. A engrenagem disso é financeira e institucional: não há industrialização com custo de capital incompatível com investimento de longo prazo e risco tecnológico.
No melhor dos mundos, o Brasil conseguiria construir a capacidade autárquica própria de países soberanos, com um altíssimo nível de independência. Mas, para chegar a esse nível de desenvolvimento, é preciso uma arquitetura diplomática que firme parcerias estratégicas, forneça acesso à tecnologia e abra mercados de consumo.
Em síntese: é preciso pensar a diplomacia brasileira sob a perspectiva de um projeto de desenvolvimento, firmando parcerias com agentes que auxiliem nessa construção.
A neutralidade política destrói a objetividade diplomática. É preciso arquitetar uma política externa compatível com o projeto de desenvolver a indústria brasileira, o que implica abandonar o suposto “pragmatismo brasileiro” que, no fim das contas, sempre foi entrar na arena da política internacional disposto a ser “amigo de todos”, ao custo de não ter objetivos diplomáticos de longo prazo.
Essa objetividade na agenda diplomática fará com que o Itamaraty busque reciprocidade real nas negociações. Acordos comerciais, memorandos e parcerias só fazem sentido se vierem acompanhados de acesso efetivo ao mercado, reconhecimento de certificações, cooperação tecnológica, facilitação logística e cláusulas que evitem assimetria permanente.
A estrutura estatal que dá forma ao Estado nacional brasileiro precisa harmonizar sua agenda política interna e externa.
É preciso ter coragem para usar a arena internacional para avançar com a agenda de desenvolvimento; é preciso alinhar o sistema de produção às políticas interna e externa.