
Publicado em 03 de Março de 2026
É comum ouvir dizer, tanto na grande mídia quanto em sites e canais alternativos, a respeito dos casos de corrupção, incompetência e até de maldade envolvendo o poder público.
Pouco se fala, entretanto, de outro fator sintomático: o fato de que, muitas vezes, até mesmo o bem, o que é certo, é feito pelos fins errados.
Tomemos como exemplo o “Caso Master”. Quando Toffoli foi removido da relatoria e Mendonça o substituiu, logo começaram a sair reportagens a respeito de suas declarações, e uma é digna de especial atenção: o Ministro afirma, segundo reportagens diversas, que esse seria o caso mais importante de sua carreira e que marcará a sua biografia.
Ou seja, tendo em mãos um dos casos de maior peso da história recente da República brasileira, que envolve o setor financeiro e as mais altas esferas do poder; um caso que pode desmascarar toda uma estrutura de corrupção e o completo sequestro das instituições brasileiras, mudando o curso da nossa história, em que é que o ministro pensa e fala? Em carreira pessoal e biografia. E o pior? Ninguém acha estranho.
Há não muito tempo, o então juiz Sérgio Moro também tomava uma decisão muito importante — essa de caráter mais questionável do que a postura de Mendonça em relação ao Caso Master —, se demitiu do Governo Bolsonaro “para preservar sua biografia”.
E biografia, ora… é uma palavra de significado muito específico. “Bio” significa “vida”, e “grafia”, significando mais diretamente a escrita, costuma transmitir também a ideia de “registro”.
Portanto, quando alguém fala em “impacto na sua biografia”, não está se referindo nem mesmo ao impacto sobre sua vida, mas sim sobre como sua vida é registrada, como sua história é contada, em como terceiros a verão. Em outras palavras, está preocupado com suas vaidades.
É normal, e até esperado, que um juiz zele pelo seu nome e pela credibilidade de suas ações, mas não é normal, por exemplo, juízes fazerem sessões de fotos, opinarem sobre assuntos do momento, saírem por aí dando entrevista e agindo como superstars.
O serviço público carrega em seu próprio nome uma missão: a de servir ao público e ao bem comum, mesmo que isso custe sua reputação e sua carreira. Um juiz deveria agir pelo que é justo; um legislador deveria promover leis que resolvam problemas; e um estadista deve agir pelo bem do país, mesmo que saiba que a história possa julgá-lo por anos como vilão pelo bom serviço prestado, mesmo que seja em detrimento de sua biografia.
E os nossos homens de Estado, como agem? Alguns “pela biografia”, outros pela carreira ou pela audiência em redes sociais. Há aqueles que geram escândalos, fazem fanfarras, leis extravagantes… há até alguns vendendo infoprodutos.
Alternam entre o oportunismo imediatista e o projeto pessoal de carreira, mas dificilmente têm um projeto público de serviço ao bem comum.
E o resultado é óbvio: reina nas mais altas esferas de poder a disputa entre projetos carreiristas pessoais ou de pequenos grupos de interesses, com biografias exaltadas — que nem sempre são fiéis à realidade —, à custa do bem comum e de gente real, que trabalha dia e noite para sustentar o joguinho de egos e vaidades institucionalizado.