
Publicado em 09 de Janeiro de 2026
É preciso um estômago forte para aguentar as notícias que surgem diariamente de Brasília sem passar mal. O Brasil, famoso por tantas jabuticabas jurídicas, está assistindo a um fenômeno que desafia a própria lógica: um único homem, Daniel Vorcaro, está conseguindo a proeza de transformar o STF, o TCU, o Banco Central e até o Palácio do Planalto em escritórios de despachante das suas vontades. Isso escancara como o sistema financeiro, que adora posar de “técnico” e “racional”, virou na verdade uma máquina de desestabilizar o país.
Só existem duas explicações para isso. A primeira é achar que o Vorcaro é um super-herói com poderes mágicos para dobrar a República. A segunda, e única verdadeira, é que as nossas instituições, que enchem a boca para fazer discursos bonitos sobre “democracia” e “fortaleza institucional”, estão na verdade podres por dentro por conta do dinheiro sujo que circula nos bastidores. Vejam a gravidade da situação: quando um banco cheio de problemas, cercado por fraudes de bilhões, virá o motivo de uma briga de foice entre ministros e órgãos do governo, o que morreu não foi só o banco. Foi a própria República, que tornou-se um balcão de negócios à plena luz do dia.
Por décadas, tentaram nos empurrar o mito de que o tal ‘Mercado’ é técnico e isento, como se fosse um semideus que, lá do alto das suas planilhas, decide o que é bom para nós. A crise do Banco Master é a prova final de que isso é pura ilusão, e que a tal ‘visão técnica’ nunca passou de uma fachada bonita para esconder a velha negociata, cada vez mais descarada, entre a Faria Lima e Brasília. Se o destino de uma nação inteira pode ser sequestrado pelos rolos de um financista e seu exército de engravatados, então essa ‘técnica’ é só propaganda a serviço de quem acorda e vai dormir sem pensar no povo brasileiro nem por um segundo.
Tudo isso escancara uma verdade doída, mas necessária: confiar no ‘Mercado’ para dizer para onde o Brasil deve ir sempre foi, com o perdão da expressão, uma tremenda burrice. O mercado financeiro não tem pátria, não tem bandeira e, como ficou claro agora, não tem vergonha na cara. Eles exigem que o povo aperte o cinto e aceite cortes e aumento de impostos, mas, na hora de tapar o rombo dos próprios negócios com o nosso dinheiro, a “austeridade” desaparece. O lucro é sempre deles, e o prejuízo é sempre nosso.
Se essa bagunça está instaurada nas instituições por causa de um único sujeito, é porque o Estado renunciou à sua soberania para um bando de agiotas com diplomas. O único jeito de sair dessa ignomínia é ter a coragem de olhar para o Brasil de frente e assumir um nacionalismo real e corajoso, sem loucuras fiscais ou ideias malucas, mas moderno e, especialmente, nacional. É a única maneira de se levantar instituições fortes o suficiente para evitar que se venda o país aos poucos – ou o Estado brasileiro toma as rédeas da soberania monetária e financeira e tira esse poder da mão de quem vê o país apenas como uma carteira de investimentos particular, ou vamos continuar a ter o nosso futuro devorado por eles.
O Brasil é grande demais para caber em balancetes fraudulentos, e isto vale dobrado para quem ainda cai no conto da ‘mão invisível’ que resolve tudo. No caso do Vorcaro, a mão está bem visível, e ela está apertando o pescoço da moralidade pública. Ou a Nação impõe respeito, ou vamos continuar a ser o quintal de banqueiros que brincam de Deus com o nosso futuro. E Deus costuma cobrar caro, e com juros, de quem brinca de realizar falsos milagres.