
Publicado em 16 de Janeiro de 2026
Um episódio nas redes sociais expôs uma tensão latente na direita brasileira. Ou melhor, em uma parte que se diz à direita.
Um vídeo crítico ao PT, postado pelo governador de São Paulo, recebeu um comentário de sua esposa: “Nosso país precisa de um novo CEO, meu marido!”. A curtida pública do governador transformou o que poderia ser um gesto familiar em um sinal político imediato.
Foi mais um teste coordenado, com aparência de engajamento orgânico, mas guiado pelo mesmo componente de sempre: o cálculo político. Em poucas horas, pesquisas foram amplificadas, narrativas circularam e o debate se inflamou. Os argumentos que surgiram foram quase infantis: “A rejeição ao nome de Flávio é alta”. Ora, e a rejeição ao principal adversário, que é ainda maior? O pré-candidato lançado há apenas dois meses já aparece nas pesquisas colado no candidato petista. Se o objetivo fosse fortalecer um projeto de direita, o foco estaria na consolidação desse nome, não em desqualificá-lo.
Nesse caso, o problema vai muito além de nomes. A ideia de “CEO para o Brasil” carrega uma visão antiga e limitada: o país como empresa deficitária, o povo como quadro funcional, as decisões reduzidas a indicadores de desempenho, cortes de custo e eficiência técnica. Basta trocar o gestor, ajustar a planilha e tudo “vai funcionar”. É a ilusão tecnocrática de que a política pode ser substituída por administração fria, acima dos conflitos reais, tutelando permanentemente uma sociedade que não sabe se governar sozinha. Mas parte significativa dela sabe exatamente o que não quer. O bolsonarismo surgiu também como reação a essa visão, contra a pretensão de que a nação é uma corporação mal gerida e que um executivo pode consertá-la sem envolver e respeitar o povo em seus valores, soberania e identidade. O Brasil não pode ser reduzido a uma planilha. Os conflitos não se resolvem com pitch de investidor: esse já é o Brasil que não funciona, que teve apenas um intervalo de 4 anos com Jair Bolsonaro. O sistema se reorganizou e o resto da história todos conhecem.
O movimento de 2018 foi popular e visceral. Nesse contexto, o cálculo político fica evidente. O apoio ao nome escolhido pelo líder permanece tímido, a defesa do ex-presidente tem espasmos pontuais — pedidos isolados de anistia, notas esporádicas afirmando que “está ajudando” —, mas sem continuidade contra a perseguição que se arrasta.
A planilha de quem ainda espalha por aí que a candidatura presidencial cairá no colo, não tem uma coluna fundamental: gratidão e memória. Sem o movimento que projetou o governador do anonimato para comandar o estado mais importante do país, ele permaneceria em cargos secundários, servindo a governos, inclusive, de espectros opostos. Após o episódio do “CEO”, Tarcísio teve mais um choque de realidade, a reação da base bolsonarista foi forte.
Não adianta jogar para diluir um movimento legítimo. A direita venceu em 2018 por ser autêntica e conectada ao povo, logo não aceita o establishment que sempre a desprezou. O bolsonarismo segue mais vivo do que nunca.
O governador teve mais uma prova da força do movimento. Assim como em todas as vezes que enviou sinais trocados, Tarcísio se viu obrigado a afirmar, mais uma vez timidamente, que o seu nome para 2026 é Flávio. Será que essa consciência veio para ficar?