
Publicado em 26 de Março de 2026
Mais um capítulo da crônica sobre a influência dos herdeiros do poder foi escrito com uma operação da Polícia Federal contra o Grupo Fictor. A empresa, que se vendia como um titã do agronegócio e da energia, é hoje o epicentro de uma investigação sobre fraudes bancárias que teriam drenado mais de R$500 milhões dos cofres públicos, atingindo especialmente a Caixa Econômica Federal. Mais que isso, segundo a polícia, a empresa trabalhava para o Comando Vermelho. Com uma recuperação judicial que arrasta dívidas de R$ 4 bilhões, a Fictor não é apenas um caso de má gestão — é o tal grupo de investimentos que iria comprar o Banco Master quando Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, em novembro.
Coincidentemente, a operação da Polícia Federal trouxe à tona o nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Apontado como um “consultor”, ele teria sido o elo que, em 2024, permitiu que o grupo orbitasse as esferas mais altas de Brasília, transformando o ex-sócio Luiz Phillippe Rubini em figura presente no Conselhão do Lula e em grupos parlamentares do Senado voltados aos BRICS.
A defesa de Fábio Luís, como era de se esperar, classifica essa relação como “mera amizade”. No entanto, é uma amizade de altíssimo valor de mercado, capaz de garantir a empresários sob suspeita de fraude um trânsito que o cidadão comum, ou o empresário honesto, jamais sonharia ter. É mais uma ramificação de uma rede de gentilezas e facilidades. Lulinha ainda nem conseguiu explicar as questões que envolvem seu nome no escândalo do INSS.
Com seus sigilos bancário e fiscal quebrados, Lulinha está sob uma lupa por sua proximidade com o já famoso “Careca do INSS”, apontado como chefe da quadrilha que saqueou aposentadorias e pensões de milhões de pessoas com descontos indevidos em folhas de pagamento.
O que os investigadores buscam esclarecer é a natureza de um suporte financeiro que parece ir muito além do afeto: mensagens e registros indicam passagens e estadias em Portugal custeadas pelo empresário, além de uma espécie de “mesada” recorrente e repasses de dinheiro para uma amiga íntima de Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger.
Em ambos os casos, há a coincidência de envolverem amigos do filho de Lula em escândalos que receberam a visita da Polícia Federal.
De um lado, uma empresa acusada de rombos milionários e lavagem de dinheiro para uma facção; de outro, o grande esquema que sangrou o bolso de idosos que dependem de cada centavo da previdência. No centro de ambos, o filho do presidente desfruta de uma generosidade empresarial que inclui viagens, suporte financeiro e acesso facilitado, sempre blindado pelo argumento de que não há “relação formal” ou contrato assinado. Para o brasileiro que aguarda meses por uma perícia médica ou que vê o dinheiro público virar fumaça em fraudes bancárias, o sentimento é o de assistir ao mesmo filme em looping. É a percepção de que, quando o sobrenome é Lula, a amizade deixa de ser um sentimento para se tornar uma commodity estratégica, onde o acesso ao Estado não depende de mérito ou técnica, mas de quem consegue um lugar à mesa nos círculos de poder, mas o prejuízo do banquete fica sempre com quem está do lado de fora, seja na fila do INSS ou pagando a conta da próxima fraude bancária.