Em defesa da soberania, mas de quem?

Publicado em 30 de Janeiro de 2026

A palavra soberania retornou ao debate público no Brasil. Nas palavras do atual presidente, nos editoriais de jornais da grande mídia e nos discursos de alguns políticos. O exemplo mais recente é o editorial do Estadão — “A soberania segundo Lula”, como se a iniciativa do petista fosse loucura e ineditismo jamais visto —, criticando, segundo a ótica liberal, as declarações de Lula a respeito da necessidade de a Petrobras construir navios e de sua empreitada para produzir fertilizantes em território nacional, iniciativa que, segundo o Estadão, só deixa o país mais pobre e traz prejuízos para a nação.

Tal nota crítica é uma ótima amostra de como o debate público é conduzido de forma binária, reducionista e pouco qualificada. É impossível ter um debate político minimamente coerente enquanto se está preso a abstrações reducionistas que não levam em consideração a totalidade e a complexidade do real.

Há pelo menos cinquenta anos, o debate político neste país gira em torno da escolha entre livre mercado e intervencionismo estatal, identificados respectivamente com a “direita” e a “esquerda” e incumbidos de definir automaticamente, a partir dessa base econômica, as demais alternativas humanas em todos os campos da cultura, da legislação, da moralidade etc. Quando alguém se define como “liberal é automaticamente classificado entre os direitistas, conservadores e reacionários, tornando-se, em contrapartida, socialista, progressista e revolucionário tão logo mude para o campo do intervencionismo estatal. Como se fosse impossível para qualquer cristão conservador ver as injustiças do patrimonialismo e usar o poder do Estado para colocar limites entre o público e o privado.

Mesmo quando outros fatores — de ordem moral, cultural, geopolítica ou militar — intervêm na disputa, complicando o quadro e privando as vozes públicas dos confortos do esquematismo primário, a única reação da intelligentsia nacional é tentar recuperar às pressas seu estado de equilíbrio homeostático mediante a proclamação de que a esquerda e a direita não existem mais, de que o mundo entrou numa fase de busca pela governança global e paz perpétua, e de que, de agora em diante, só resta decidir quem tem mais competência para administrar tecnicamente o país.

Desde logo, a escolha entre livre mercado e intervencionismo é uma coisa quando encarada como alternativa teórica, como modelo abstrato de sociedade ideal, e outra coisa completamente diversa quando inserida no quadro histórico e geopolítico concreto. 

As abstrações binárias reduzem o debate entre a intervenção e a governança absoluta do Estado e a utopia de uma ordem absolutamente neutra politicamente, como se fosse possível concentrar todo o poder institucional na busca pela prosperidade do país. Ironicamente, no quadro geral da política nacional ninguém pode ser classificado como socialista ou liberal “puro-sangue”, pois a maioria dos políticos com meios de ação não trabalha pela construção de uma utopia, mas pela manutenção do poder oligárquico de seu grupo.

No fim das contas, defende-se a soberania de quem? Defende-se a autonomia e a soberania da nação ou o aumento do poder de grupos oligárquicos que ocupam o Estado brasileiro? Lula fala sobre soberania para defender seu grupo e o uso de meios revolucionários para transformar a ordem política brasileira por meio de perseguição, censura e instrumentalização das instituições. E o Estadão defende o poder das oligarquias financistas por meio de uma distorção do conceito de soberania que busca neutralizar a legitimidade política do soberano.

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