
Publicado em 02 de Março de 2026
Ontem, na Avenida Paulista, o senador Flávio Bolsonaro subiu no caminhão, protegido por um colete à prova de balas por baixo da camiseta amarela da seleção. Essa imagem é o retrato de uma democracia que já adoeceu profundamente. O senador estava orientado pela própria Polícia Legislativa do Senado, a segurança oficial do Estado. Quando um parlamentar precisa se blindar para discursar em público, a liberdade de expressão deixa de ser um direito e torna-se uma ameaça de morte. O debate morreu; a munição tomou o seu lugar.
Flávio confirmou no local: sabe dos riscos. A violência política deixou cicatrizes profundas em sua família, e Jair Bolsonaro ainda sofre com elas. Desde a facada em 2018, em Juiz de Fora, o ex-presidente passou por cirurgias sucessivas, internações emergenciais e as dores crônicas que não cessam. Até hoje, as sequelas persistem: limitações intestinais graves, hérnias recorrentes e soluços incontroláveis que exigem procedimentos invasivos, além de dificuldades para comer e dormir. O corpo de Jair Bolsonaro é um mapa da intolerância: o ódio que não aceitou o cenário que se desenhava e se confirmou nas urnas, optando pela eliminação física. O ódio não argumenta; ele perfura, mutila e deixa marcas permanentes.
Flávio sabe que, para um líder conservador hoje, o maior desafio não é mais conquistar votos ou vencer o debate de ideias, mas sobreviver. Quem não possui argumentos sólidos ou realizações para mostrar, recorre à força bruta. O atentado tornou-se a arma de quem teme a voz das ruas e perdeu a capacidade de convencer.
Isso não é só por aqui. O padrão se repete pelo mundo, em uma caça sistemática a líderes que incomodam o establishment. Donald Trump escapou por pouco duas vezes em 2024: baleado na orelha em um comício na Pensilvânia e, posteriormente, visado por um atirador em um campo de golfe na Flórida. Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia, foi baleado à queima-roupa em 2024 e sobreviveu por um triz. Shinzo Abe, ex-primeiro-ministro japonês, foi morto em julho de 2022 durante um discurso de campanha, vítima de um atirador com arma caseira. Charlie Kirk, ativista da *Turning Point USA*, foi assassinado em setembro de 2025 por um tiro de precisão durante um evento na *Utah Valley University*. Kirk tinha enorme apoio entre jovens, defendia valores tradicionais e incomodava o sistema — por isso, tornou-se alvo. Quando o sistema percebe a iminência da derrota pelo convencimento, tenta calar na bala.
Esses episódios são sintomas do “ódio do bem” — aquele que se disfarça de causa justa e dá licença para que fanáticos se sintam heróis ao puxar o gatilho contra quem pensa diferente. O nome disso é covardia absoluta. É a falência da política e o começo da barbárie.
Uma democracia que exige coletes é uma farsa completa. Não há liberdade verdadeira quando o medo define o tamanho do palanque, a proximidade com o povo e até a vestimenta de um senador. Se a eliminação do adversário pela violência se torna o critério decisivo na escolha política, todos nós já perdemos a liberdade.
O silêncio dos cemitérios não pode tomar o lugar da voz das ruas. Condenar a violência não é fraqueza, é questão de sobrevivência coletiva.
A verdadeira democracia não suporta o sangue como resposta ao debate.