Da rua ao sistema: quando o conflito político deixa a narrativa e atinge a infraestrutura

Publicado em 06 de Janeiro de 2026

Durante décadas, o conflito político foi disputado por meio de ideias, votos e instituições. Protestos de rua, discursos e eleições continuam existindo, mas perderam centralidade. Uma mudança mais silenciosa vem se impondo: o confronto migrou para os sistemas que sustentam a vida cotidiana.

No sábado, um incêndio numa ponte sobre o canal Teltow, no sudoeste de Berlim, derrubou cabos de alta tensão e deixou cerca de 45 mil residências e mais de dois mil estabelecimentos sem luz. Em pleno inverno, com temperaturas abaixo de zero. O grupo Vulkangruppe assumiu a autoria e publicou um manifesto de 2.500 palavras explicando a lógica do ataque: “cortar o fornecimento de energia da classe dominante”. Escolheram bairros ricos como Zehlendorf, Wannsee e Lichterfelde e pediram desculpas aos pobres eventualmente afetados. A simpatia, disseram, era limitada aos “donos de villas agora no escuro”.

O prefeito Kai Wegner classificou o episódio como ataque de extremistas de esquerda à rede elétrica, com risco direto à vida. As redes móveis também caíram, forçando a polícia a usar alto-falantes nas ruas. Idosos em prédios altos ficaram sem elevador. Asilos e hospitais operaram em modo de emergência. Algumas áreas podem permanecer sem energia por dias, já que o frio dificulta o reparo dos cabos subterrâneos.

Não foi um caso isolado. Em março de 2024, o mesmo grupo incendiou um poste de transmissão e paralisou a gigafábrica da Tesla nos arredores de Berlim. Em setembro, outro ataque causou o maior apagão da cidade desde a Segunda Guerra. O serviço de inteligência alemão já classifica o Vulkangruppe como organização extremista de esquerda e o monitora há anos.

O que chama atenção não é a violência em si, mas a racionalidade por trás dela. Não se trata de surto ideológico, mas de cálculo. Convencer dá trabalho, leva tempo e pode falhar. Derrubar uma subestação produz resultado imediato. Casas no escuro, hospitais sem gerador, escolas sem aula, transporte interrompido.

Energia, telecomunicações, dados e logística viram alvos porque funcionam. Atacar infraestrutura custa pouco, afeta muita gente e é difícil de enquadrar. Terrorismo, protesto, ativismo climático ou sabotagem. O manifesto mistura tudo: críticas a datacenters de inteligência artificial, denúncia da “ganância energética” e retórica de autodefesa planetária. A polícia considerou o texto “crível”. A imprensa oscila entre reportagem e contextualização política. O Estado trava.

Se reage com força, é acusado de autoritarismo. Se não reage, abre caminho para a próxima ação. Quem atua fora das regras leva vantagem. O dano não tem rosto específico: idosos, trabalhadores, doentes e famílias são atingidos de forma indistinta. Ainda assim, isso costuma ser tratado como efeito colateral aceitável numa guerra maior contra o capital, o clima ou a tecnologia.

Democracias sabem lidar com protestos e eleições disputadas. Sabem muito menos o que fazer com ações que operam abaixo do que se chama de violência política, mas acima do mero dissenso. Especialistas ouvidos pelo jornal britânico The Guardian apontam que ataques à infraestrutura exigem pouco conhecimento técnico, que mapas dos pontos críticos estão disponíveis online e que os planos de contingência são frágeis.

Quando o método funciona, ele se repete. Não precisa de adesão em massa, apenas que o cálculo feche. O risco não está no episódio isolado, mas na normalização. A cada ataque bem-sucedido, a tática ganha legitimidade operacional. A infraestrutura deixa de ser cenário e vira território de disputa.

Não é uma ruptura abrupta, mas um deslocamento gradual. À medida que travar sistemas se mostra mais eficiente do que disputar ideias, a infraestrutura passa a ocupar o centro do conflito político.

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