
Publicado em 25 de Julho de 2026
Os EUA anunciaram mais uma tarifa sobre produtos brasileiros, dessa vez pela leniência do governo com empresas que utilizam trabalho forçado. Na carta, o governo disse que aqui a jornada que esgota o trabalhador é crime, que o alojamento indigno é crime, e que o Brasil tem uma lista oficial com o nome das empresas pegas explorando gente – a chamada “Lista Suja” de empregadores. Quem entra nela perde crédito em banco público e fica com o nome manchado.
Mas isso, claro, não é a história completa.
No fim de 2024, fiscais entraram numa obra em Camaçari, na Bahia. Ali, a BYD, empresa chinesa de carros construiu uma fábrica. Eles encontraram mais de duzentos trabalhadores chineses dormindo sem colchão, com um banheiro para cada trinta e uma pessoas e jornada de até setenta horas por semana, quase o dobro do que a lei permite. Muitos estavam com o documento tomado e o salário retido. A própria empresa depois pagou um acordo de milhões por causa disso.
Em abril deste ano, o nome da BYD entrou na “Lista Suja”, consequência óbvia de quem utiliza trabalho análogo à escravidão. É pra isso que existe a lei. Mas a empresa recorreu e conseguiu sair em menos de três dias. A lista que o governo mostra ao mundo não aguentou a empresa chinesa nem um fim de semana.
Mas isso tudo não é o verdadeiro escândalo. A servidora que assinou a inclusão da BYD na Lista Negra dos empregadores o fez porque tinha o flagrante e o processo pronto. Mesmo assim, o ministro do Trabalho Luiz Marinho deu ordens para puni-la. O secretário que cuida da fiscalização se recusou a castigá-la. Resultado: foi esse secretário quem acabou demitido. Diferente do que se manda em cartinhas, no Brasil do PT, um chefe da fiscalização perde o cargo por defender quem cumpriu a lei.
Isso não é um caso isolado. O mesmo ministro já tinha segurado outras empresas fora da lista antes. E, quando o assunto é a China, o governo parece ter um cuidado especial.
O Brasil é muito rico em níquel, usado para construir baterias de carros elétricos. Boa parte dele foi vendido para uma empresa do governo chinês, por cerca de 500 milhões de dólares. Havia outra proposta, ligada ao Ocidente, de quase 900 milhões. Não deu em nada. O governo assistiu tudo isso calado e permitiu que hoje a China controle mais da metade do níquel brasileiro.
De um lado, uma empresa chinesa flagrada com trabalho escravo que sai da lista em três dias, e quem defendeu a lei foi demitido. De outro lado, o metal precioso do país escorrega para o governo chinês por preço menor, e ninguém no governo levanta a mão. O raciocínio por trás disso tudo é o mesmo.
Existe uma expressão antiga: fazer as coisas “para inglês ver”. Ela nasceu de uma lei de 1831 que proibia trazer escravos em navios, uma lei bonita, aprovada só para agradar a Inglaterra enquanto os navios continuavam chegando do mesmo jeito. Uma lei que existia no papel mas não tinha nenhum impacto na realidade.
Quase duzentos anos depois, o roteiro é o mesmo. Antes o Brasil fingia para a Inglaterra, agora se faz de correto para os Estados Unidos. Antes era uma lei para evitar trabalho escravo que ninguém cumpria. Agora… continua a mesma coisa.
Não dá para gritar lá fora que ninguém pode duvidar do Brasil e, aqui, demitir quem colocou uma empresa escravagista na lista. No fim, a carta que o governo manda fica, ela sim, para inglês ver — o governo finge que combate o crime, os correligionários fingem que acreditam e o resto dos brasileiros, dos enganados aos tarifados, continuam cada vez mais achacados pela situação que o governo, na sua ânsia de poder, inflige ao país.