
Por: Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino – Publicado em 11 de Janeiro de 2026
A nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN) dos EUA representa uma ruptura em várias frentes com as edições anteriores do documento doutrinário, refletindo a intenção do “núcleo duro” dos apoiadores do presidente Donald Trump, de reposicionar o país no cenário global, recuperando diretrizes que o converteram na maior potência econômica do mundo, em especial, o chamado Sistema Americano de Economia Política, e afastando-o da agenda “globalista” favorecida pelos seus antecessores.
O documento enfoca diretamente uma rejeição do “globalismo” e seus pilares institucionais – livre comércio, ambientalismo, transição energética baseada na descarbonização da economia e identitarismo –, aos quais atribui o enfraquecimento da classe média e da base industrial estadunidenses.
Nesse reposicionamento, a economia merece destaque, com um conceito de segurança econômica baseado em: 1) reindustrialização; 2) comércio equilibrado; 3) acesso seguro a cadeias de suprimentos e materiais críticos; 4) dominância energética (com a rejeição das “desastrosas políticas de ‘carbono zero’ e de mudanças climáticas”, além da promoção dos combustíveis fósseis e da energia nuclear); 5) fortalecimento da base industrial de defesa; 6) preservação da dominância no setor financeiro (atenção, é “no” e não “do”).
Diz o texto:
“Queremos a base industrial mais robusta do mundo. O poder nacional americano depende de um setor industrial forte, capaz de atender às demandas de produção tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra. Isso exige não apenas capacidade de produção industrial direta para a defesa, mas também capacidade de produção relacionada à defesa. Cultivar a força industrial americana deve se tornar a maior prioridade da política econômica nacional. Queremos o setor energético mais robusto, produtivo e inovador do mundo – um setor capaz não apenas de impulsionar o crescimento econômico americano, mas também de ser uma das principais indústrias de exportação dos Estados Unidos.”
De particular relevância é a menção explícita ao secretário do Tesouro Alexander Hamilton, pai intelectual do Sistema Americano, que se baseia historicamente em protecionismo de indústrias nascentes/estratégicas, grandes investimentos públicos em infraestrutura e crédito orientado para atividades produtivas.
Em essência, o governo Trump está empenhado em reverter a desindustrialização dos Estados Unidos. Um impulso encarnado em um grupo de empresários e investidores reunidos em torno do vice-presidente J.D. Vance e liderados por Chris Buskirk, um empresário do Arizona oriundo do setor de seguros (principalmente, para pequenas e médias empresas) e fundador da chamada Rockbridge Network. A rede desempenhou um papel crucial na mobilização de eleitores em favor de Trump, principalmente nos “estados oscilantes” (swing states), que não mostram inclinações preferenciais por Democratas ou Republicanos.
O grupo, que pretende cacifar Vance para a sucessão de Trump, ambiciona recolocar e consolidar uma “aristocracia produtiva” no comando do país. Nas palavras de Buskirk: “Ou você tem uma elite extrativa – uma oligarquia – ou você tem uma elite produtiva – uma aristocracia – em cada sociedade.”
Um bom nome para esse impulso, refletido na ESN, poderia ser “nacional-industrialismo estratégico”.
A União Europeia é citada como padecendo de declínio econômico e civilizatório:
“(…) Esse declínio econômico é ofuscado pela perspectiva real e mais sombria do apagamento civilizatório. Os maiores problemas que a Europa enfrenta incluem as atividades da União Europeia e de outros organismos transnacionais que minam a liberdade política e a soberania, as políticas migratórias que estão transformando o continente e criando conflitos, a censura à liberdade de expressão e a supressão da oposição política, a queda vertiginosa das taxas de natalidade e a perda de identidades nacionais e autoconfiança. Caso as tendências atuais persistam, o continente estará irreconhecível em 20 anos ou menos. Assim, está longe de ser óbvio se certos países europeus terão economias e forças armadas suficientemente fortes para permanecerem aliados confiáveis. Muitas dessas nações estão atualmente intensificando esforços em seu caminho atual. Queremos que a Europa permaneça europeia, que recupere sua autoconfiança civilizacional e que abandone o seu foco fracassado na sufocação regulatória.”
Mesmo sem uma citação nominal, trata-se de um ataque aos valores iluministas encarnados na “eurocracia” de Bruxelas.
Mas o documento é igualmente implacável com as elites domésticas: “(…) Elas amarraram a política americana a uma rede de instituições internacionais, algumas delas movidas por um antiamericanismo aberto e muitas por um transnacionalismo que busca explicitamente dissolver a soberania estatal individual. Em suma, nossas elites não apenas perseguiram um objetivo fundamentalmente indesejável e impossível, mas, ao fazê-lo, debilitaram os próprios meios necessários para atingir aquele objetivo: o caráter da nossa nação, sobre o qual foi construído o seu poder, riqueza e decência.”
Um elemento-chave é a primazia das nações: “A unidade política fundamental do mundo é e permanecerá sendo o Estado nacional. O mundo funciona melhor quando as nações priorizam os seus interesses. Os EUA colocarão os nossos próprios interesses em primeiro lugar e, em nossas relações com outras nações, as incentivam a também priorizar os seus próprios interesses. Nós apoiamos os direitos soberanos das nações contra as incursões solapadoras das soberanias das mais intrusivas organizações transnacionais, além da reforma dessas instituições, de modo que possam apoiar, em vez de obstaculizar a soberania individual, e promover os interesses dos EUA.”
Da mesma forma, redefine o anterior rótulo de “potências revisionistas” aplicado à China e à Rússia. A primeira passa a ser uma competidora com a qual se pretende uma “relação econômica genuinamente mutuamente vantajosa”. Com a segunda, os EUA deverão trabalhar para restabelecer uma “estabilidade estratégica ao longo da massa continental eurasiática”.
O aspecto espiritual, cuja presença num manifesto estratégico pode parecer estranha a muitos, recebeu uma consideração: “(…) Nós queremos a restauração e revigoração da saúde espiritual e cultural americana, sem a qual a segurança a longo prazo é impossível.”
A citação não é retórica gratuita. Apesar de Trump não ser notório por pendores religiosos, ele tem se empenhado em apoiar os valores culturais associados à tradição cristão ocidental dos EUA, debilitados por décadas de políticas e influências identitárias. Em 12 de outubro, renomeou exclusivamente o feriado como Dia de Colombo (que Biden havia nomeado de Dia dos Povos Indígenas), celebrando o navegador e os Reis Católicos espanhóis Fernando e Isabel. E já demonstrou várias vezes o seu apreço pela devoção a Santa Maria como um importante elemento cultural americano.
Para o Hemisfério Ocidental, a ESN apresenta um grande desafio, colocando com clareza toda a região como área de influência dos EUA, em evidente oposição à penetração da China: “Nós negaremos no nosso hemisfério a competidores não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração de senso comum e potente do poderio e das prioridades americanas. Nós alistaremos amigos estabelecidos no hemisfério para controlar a emigração, interromper fluxos de drogas e reforçar a estabilidade e segurança na terra e no mar. Nós expandiremos cultivando e reforçando novos parceiros, enquanto reforçamos o apelo da nossa nação como o parceiro econômico e de segurança de escolha do hemisfério.”
De fato, a ESN sepulta a ordem hemisférica posterior à Guerra das Malvinas (1982), quando os EUA de Ronald Reagan anularam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) em favor do Reino Unido de Margaret Thatcher no confronto com a Argentina. Ordem transmitida ao hemisfério pelo famigerado Diálogo Interamericano, promotor das políticas de debilitação dos Estados nacionais soberanos ibero-americanos, implementadas por numerosos membros que assumiram cargos de liderança em seus países (entre eles, os nossos conhecidos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Marina Silva).
Sobre o “Corolário Trump”, o dilema reside em se será mais parecido com a Doutrina Monroe antiimperialista original, o imperialista “Corolário Roosevelt” (de Theodore Roosevelt, 1901-1909) ou a Política de Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt (1933-1945).
Para o Brasil, em particular, a política de Franklin Roosevelt e o exemplo do New Deal tiveram uma influência positiva para o impulso modernizador empreendido por Getúlio Vargas, que estabeleceu importantes acordos de cooperação com os EUA, com destaque para o apoio financeiro e tecnológico para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, base da industrialização do País.
Uma zona de sombras recai sobre a maneira como os países hemisféricos abordarão o desafio de propor aos EUA o estabelecimento de uma ordem de cooperação para o desenvolvimento com vantagens compartilhadas. Para tanto, é um pré-requisito que enfrentem a contento as suas contradições internas, que tanto têm dificultado o seu próprio desenvolvimento e, não menos, o estabelecimento de relações não maniqueístas de submissão ou antagonismo aos EUA.