
Publicado em 20 de Fevereiro de 2026
O ambiente mudou. A direita de 2026 não se move como se movia cinco anos atrás, embora parte das lideranças ainda fale como se estivesse naquele cenário. Quando a pergunta sobre apoiar Flávio Bolsonaro como candidato do campo provoca desconforto maior do que a resposta em si. Não há problema na pergunta. O incômodo está na dificuldade de assumir posição quando a posição exige exposição.
Quem viu a direita ganhar força sabe que aquilo não nasceu em reunião fechada. Não foi plano sofisticado nem engenharia eleitoral calculada. Foi gente comum se expondo quando isso custava caro. Defender Bolsonaro em 2018 significava perder relações, enfrentar isolamento, suportar hostilidade cotidiana. A base fez isso sem garantia de retorno e sem saber onde aquilo terminaria. O capital político que hoje circula foi construído ali, no risco assumido por milhões de pessoas anônimas.
Essa base não ficou para trás. Ela percebe quando alguém mede cada palavra para não se comprometer e quando a definição é empurrada para depois. Percebe também quando a cautela vira hábito. Em ano eleitoral, isso pesa mais. A diferença entre assumir posição e administrar silêncio deixa de ser detalhe interno e passa a ser sinal público.
Apoiar Flávio não é formalidade protocolar. É dizer qual é o rumo do campo e com quem se pretende caminhar. Permanecer indefinido também diz algo, mesmo que não seja essa a intenção. E quem milita há tempo suficiente entende essa mensagem, ainda que ninguém a formule explicitamente.
A irritação não nasce da discordância. Divergência sempre existiu. O que gera desconforto é tratar a cobrança por clareza como exagero, como se perguntar “você apoia ou não apoia?” fosse atravessar algum limite indevido. Não é. É o básico em qualquer processo eleitoral sério.
O que começa a aparecer não é escândalo. É esfriamento. A defesa automática já não surge com a mesma rapidez. O entusiasmo precisa de justificativa. Isso não vira manchete nem provoca racha imediato, mas altera o clima e a disposição de quem sustenta o campo no cotidiano.
A direita nunca teve máquina sindical ou estrutura estatal para compensar desmobilização. Sempre dependeu de base orgânica, de gente que se engaja por convicção. Quando tal base reduz a intensidade, não há discurso bem formulado que a substitua.
Ninguém está pedindo obediência cega. O que se espera é coerência mínima entre o que se disse por anos e o que se faz agora. Quem cobrou posição clara de adversários não pode se surpreender quando a própria posição é cobrada.
Esse tipo de desgaste não faz barulho. Mas fica. E se acumula.