
Publicado em 23 de Abril de 2026
Afirmar que atualmente o modelo econômico reinante no mundo é uma espécie de protofascismo — em que a propriedade privada e os lucros continuam nominalmente nas mãos de investidores e de grandes oligopólios, mas o Estado dita todas as regras por meio de asfixia regulatória, burocracia e tributação — pode chocar muitos economistas, analistas geopolíticos e jornalistas. Mas a verdade é que não existem grandes corporações bem-sucedidas sem contratos com Estados, ou governos bem-sucedidos sem boas relações com grandes corporações.
Vai além da simples intervenção ou proteção do Estado a um setor estratégico e de estímulos a um setor nascente essencial para algum interesse nacional.
Essa nova fórmula fascista não se resume à intervenção em um setor da economia, ou mesmo à proteção de indústrias nascentes. Trata-se da planificação das economias nacionais e do sufocamento da livre-iniciativa econômica que cria monopólios de produção, distribuição e oferta de produtos, tudo isso promovido por uma relação promíscua entre grandes corporações e burocratas estatais.
É um arranjo de economia política no qual a elite financeira e corporativa utiliza o poder coercitivo e financeiro do Estado para blindar-se contra os riscos e a concorrência do livre mercado, garantindo monopólios e proteção estatal sob o verniz retórico de políticas progressistas ou de bem-estar social.
Trata-se de corporações que não querem mais estar sujeitas aos arbítrios do mercado, mas que desejam ser o próprio mercado. É esse o regime de economia política dominante no mundo.
Mas como é possível manter a estabilidade desse arranjo político e econômico com tantos partidos lutando pela justiça social e pela distribuição de renda, e combatendo o capitalismo em todas as suas formas? Como se chegou a esse ponto sem desencadear uma revolução?
Bem, se as grandes corporações compreenderam que, para tornarem-se o mercado e não mais concorrerem nele, é preciso tomar os Estados nacionais; para chegarem ao poder ou manterem-se nele, os partidos justiceiros sociais precisam garantir que não haverá qualquer alteração na fórmula fascista de conduzir a economia.
E, para quem tem dúvidas quanto a essa dinâmica, Lula confessou com todas as letras que a esquerda progressista tornou-se parte do sistema para chegar ao poder, e que, agora, a direita soube apontar para esse fato e está se vendendo como outsider, como antissistema:
“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante… ainda assim nós sucumbimos à ortodoxia, temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo.
Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade, abrem mão das políticas públicas em nome da governabilidade.
Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”
Lula admite que o movimento progressista foi essencial para a manutenção do consenso de Washington, para a apaziguação social e para a viabilidade política do neoliberalismo.
Em um raríssimo momento de sinceridade, admite que explorou as mazelas sociais causadas pelo neoliberalismo para chegar ao poder e, ao alcançá-lo, colaborou para a manutenção dessa práxis econômica e de todas as suas consequências.
Como é possível o cúmplice de um crime querer a solução do caso?
Como é possível um gerente das mazelas do neoliberalismo ter a solução para o endividamento do povo, para a sua falta de dignidade e para o seu clamor por reformas?
Lula não tem soluções, tem apenas um projeto de poder.