
Publicado em 11 de Abril de 2026
A recente declaração de Gabriel Galípolo, do Banco Central, de que “o brasileiro só acha que tem dívida quando atrasa a prestação”, captura com precisão o abismo que separa a elite burocrática de Brasília da dura realidade das ruas. É o típico raciocínio de quem não precisa escolher entre pagar a conta de luz ou comprar comida. Galípolo tenta reduzir um problema estrutural de sobrevivência a uma questão psicológica do cidadão comum.
O que ele e o governo parecem ignorar é que o crédito no Brasil deixou de ser um luxo ou um acessório de consumo há muito tempo. Para dezenas de milhões de famílias, virou a única possibilidade de colocar comida na mesa, manter a luz acesa e evitar que o mês acabe logo no começo. O brasileiro sabe muito bem o que deve. Ele sente o peso no bolso todo santo dia. A diferença é que, para ele, a dívida tem consequência real: nome sujo no Serasa, crédito cortado, porta batida na cara do banco e a vida que simplesmente trava.
Já o Estado opera numa realidade paralela. A dívida bruta do governo já chegou a 79,2% do PIB em fevereiro de 2026, o equivalente a mais de R$ 10,2 trilhões. As projeções apontam para algo próximo de 83% ou mais até o final deste ano. São anos de gastos desenfreados financiados com dinheiro que, no fim das contas, sai do bolso de quem produz e paga impostos. O cinismo fica evidente: um governo que bate recordes de endividamento agora quer dar lição de moral sobre “consciência financeira” ao trabalhador que mal consegue sobreviver.
O quadro é desesperador. Mais de 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas — um recorde da série histórica. Dados do próprio Banco Central mostram que o endividamento das famílias em relação à renda acumulada chegou perto de 50% no início do ano, com o comprometimento da renda (ou seja, quanto do salário vai só para pagar parcelas) batendo em torno de 29%. Isso significa que quase um terço do que entra em casa já está comprometido antes mesmo de comprar pão. E não é cartão de crédito por capricho: é financiamento de comida, remédio, escola das crianças ou combustível para ir trabalhar.
Nesse meio tempo, os bancos registram lucros estratosféricos. Só em 2025, os quatro maiores — Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander — somaram mais de R$ 107 bilhões de lucro líquido. Enquanto o cidadão comum rola dívida no rotativo do cartão a juros que facilmente passam de 400% ao ano, o sistema financeiro celebra rentabilidade alta.
É o ápice da inversão de responsabilidades. O Estado gasta mal, alimenta a inflação, mantém os juros básicos elevados para tentar conter o estrago que ele mesmo ajuda a criar e, quando o aperto chega na ponta da linha, a culpa é do povo que “não entende” sua própria dívida. O problema nunca é o governo gastador, que trata o cofre como se fosse infinito. O culpado é sempre o trabalhador que acorda cedo, equilibra contas e ainda é acusado de falta de educação financeira.
Quem realmente tem um problema grave de percepção não é a dona de casa que estica o salário até o último centavo. É a cúpula que acha que a conta da irresponsabilidade fiscal pode ser empurrada indefinidamente. O brasileiro sabe exatamente o que deve. Resta saber quando o governo vai aprender que o dinheiro que ele torra não nasce em árvore — ele sai do suor, do esforço e da produção de gente que, no fim, é sempre chamada para pagar a conta.