
Publicado em 10 de Abril de 2026
A política brasileira vive um paradoxo: nunca foi tão fácil falar e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil realizar. Em um cenário dominado por algoritmos, há quem passe o dia produzindo vídeos, gritando no Twitter e emendando lives para cobrar o mundo, mas o resultado prático dessa performance é quase sempre nulo. Não que as redes sociais sejam inúteis para mobilização. Elas servem para denunciar e pressionar. O problema está na inversão: o ego e o engajamento parecem estar na frente do trabalho de base.
O senador Jorge Seif (PL-SC) escolheu o caminho oposto. Em vez do espetáculo digital, optou pelo trabalho silencioso e pela entrega concreta. Tudo começou com uma reunião às 7h30 da manhã na residência oficial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Sentado à mesa, Seif não levou slogans ou discursos inflamados. Levou fatos, demonstrou injustiças como o caso de um catarinense de 71 anos condenado a 14 anos de prisão em regime fechado apenas por ter pago uma passagem de ônibus para um manifestante. Mostrou que várias condenações pelos atos de 8 de janeiro superam em gravidade as penas aplicadas por crimes hediondos.
Alcolumbre foi direto na resposta: só haveria sessão com pauta única se a oposição aceitasse priorizar o tema e deixar outras demandas de lado, como a CPMI do Banco Master. Seif não recorreu às redes para reclamar ou gerar polêmica. Aceitou o desafio e passou os dois dias seguintes percorrendo os corredores do Senado, abordando senador por senador. O esforço rendeu um requerimento formal, protocolado com 32 assinaturas — incluindo nomes como Jorge Kajuru e outros mais distantes da base bolsonarista tradicional.
O veto de Lula ao projeto da dosimetria já estava sobrestando a pauta desde 4 de março de 2026, bem além do prazo constitucional de 30 dias. A pressão regimental somada à lista de assinaturas fez o resto: a sessão conjunta do Congresso foi marcada para 30 de abril, com item único.
Enquanto isso, os entusiastas da performance digital seguiam o roteiro de sempre: muita postagem, muita indignação, zero resultado palpável. Seif provou que não é preciso transformar o sofrimento de famílias, idosos e presos em conteúdo para ganhar curtidas. O trabalho dele foi discreto, mas eficaz.
O projeto da dosimetria já havia sido aprovado com folga nas duas Casas — 291 votos na Câmara e 48 no Senado. Não é a anistia ampla, mas representa um avanço real: permite a revisão de penas desproporcionais, a retirada de tornozeleiras eletrônicas e o retorno de injustiçados para suas famílias. É uma correção prática de distorções que alivia situações concretas sem depender apenas de retórica.
Essa trajetória deixa uma lição: Não basta apontar o dedo para o STF ou para o governo Lula. É preciso dominar o regimento, ocupar espaços internos, construir maiorias onde for possível e transformar problemas complexos em pautas que não devem ser ignoradas. A direita pode avançar mesmo em minoria quando soma ao barulho constante ações focadas e disciplinadas.
No fim das contas, a essência da política não mudou. Quem trabalha em silêncio, com método e com objetivo, ainda conquista mais terreno do que quem vive apenas do eco das próprias palavras nas redes. O ego não pode estar à frente dos objetivos.