
Publicado em 01 de Abril de 2026
Essa semana vimos – ou poucas pessoas viram, já que foi tratado como uma nota de rodapé entre tantos outros absurdos – mais uma história que estaria nas capas de todos os jornais se tivéssemos uma imprensa séria. O ministro Alexandre de Moraes assinou uma decisão que impõe ao conjunto de caminhoneiros da greve de 2022 a cifra de R$ 7 bilhões em multas. A Justiça Federal já está autorizada a executar a cobrança desse valor das pessoas físicas que receberam notificações individuais que chegam a R$ 147 milhões. Pequenas empresas foram notificadas entre R$ 5 e R$ 15 milhões. Qualquer um que já geriu um negócio no Brasil sabe que isso é uma certidão automática de falência. E a Advocacia-Geral da União, comandada por Jorge Messias, o candidato de Lula à cadeira de Barroso no STF, classificou tudo isso como critérios técnicos e razoáveis pela própria corte.
“Técnico”, no Brasil de hoje, é a palavra preferida de quem não quer que você perceba o que está acontecendo.
É bom perceber como isso tudo se encaixa na arquitetura do projeto do governo Lula, que opera em dois registros contraditórios: no discurso, ele governa para o povo, para os invisíveis, para os que foram esquecidos; na prática, ele fabrica a ruína financeira de trabalhadores que ousaram ir às ruas. O primeiro tem o palanque, o microfone e a cobertura extensiva da mídia tradicional, enquanto o segundo tem a máquina federal e parte do judiciário à sua disposição
Se fosse pura hipocrisia o país, infelizmente, já estaria acostumado. Mas o que se vê neste governo é o uso da linguagem da defesa de valores universais para encobrir um exercício de força política direcionado exatamente contra a base popular que o discurso finge abraçar. O “povo” do lulopetismo é só retórica, já que aqueles que não o apoiam – atualmente, mais da metade do país enfrenta o constrangimento de ser vítima do judiciário, seja na forma de prisões ou de multas bilionárias.
E se duvidar dos números do governo, você é inimigo da democracia.
Essa é, aliás, a outra perna do projeto. Enquanto o Judiciário sangra financeiramente quem protestou, o aparato midiático trabalha para convencer o país de que as coisas estão bem e que questionar essa narrativa é, no mínimo, suspeito. O PIB cresceu, o emprego formal aumentou, a inflação está controlada e quem discorda é bolsonarista, negacionista econômico e um risco à ordem democrática.
O mecanismo, complexo, tem como objetivo monopolizar a definição de realidade e criminalizar o dissenso. Não criminalizar abertamente – isto seria grosseiro demais – mas criminalizá-lo financeira e socialmente. Tornar o custo do protesto tão proibitivo para que a próxima geração de conservadores pense duas, três, dez vezes antes de tentar qualquer tipo de movimento contra os donos do poder.
O timing da decisão de Moraes, justo quando uma nova ameaça de paralisação dos caminhoneiros pelo preço do diesel colocaria Lula em situação delicada, é um recado que dispensa tradução: olhem o que fizemos com os outros.
Certos colapsos não chegam com um estrondo, mas como uma corrosão. Chegam na forma de multas impagáveis que o homem comum recebe e não consegue pagar. Chegam na forma de uma pequena empresa que fecha sem que nenhum índice oficial registre o porquê. Chegam no acúmulo silencioso de pessoas que aprendem, na prática, que se manifestar tem um preço que a maioria não pode pagar.
O Brasil que os números do governo descrevem e o Brasil que esses brasileiros realmente enfrentam são dois países diferentes sobrepostos no mesmo mapa. O primeiro tem Lula como porta-voz e carrasco, disposto a incendiar a vida comum por mais um mandato. O segundo, o nosso, tem dívidas, desespero e a memória das quase duas décadas de estragos das gestões petistas. E a memória, ao contrário das estatísticas, não se manipula nem se intimida por decreto.