
Publicado em 29 de Março de 2026
Nicole Loraux foi uma célebre helenista da escola francesa de antropologia histórica, muito profícua nos estudos da democracia, da política e do desenvolvimento das instituições gregas no período clássico. Loraux defendia a tese de que certos períodos históricos são marcados por singularidade: são inéditos, sem precedentes, e as ferramentas intelectuais e imaginativas não conseguem explicar a mudança de tempos. O nascimento da pólis como projeto de vida comum foi um desses períodos e, sem qualquer dúvida, vive-se sob as ruínas da cidade antiga que influenciou profundamente a civilização ocidental.
Tudo indica que passamos por um período que apresenta sua singularidade: o veloz desenvolvimento da inteligência artificial pode levar a humanidade por caminhos jamais trilhados e sem qualquer precedente na história. Quais serão as consequências políticas do desemprego em massa? Quais podem ser os efeitos econômicos da criação de uma indústria que depende exclusivamente de energia, algoritmos e data centers? Como será o exercício da razão em um mundo em que o raciocínio e a escrita foram terceirizados?
A despeito destas questões, a elite nacional e as vozes do debate público não estão à altura dos tempos; buscam conforto e esperança, utilizando jargões para manter-se no mundo colorido dos bons sentimentos enquanto ignoram a realidade. É o analfabetismo funcional utilizado como remédio diante do desespero do desconhecido, a burrice patológica como antidepressivo.
É visível a olho nu que, no Brasil de hoje, a linguagem da elite supostamente alfabetizada se reduziu a um sistema formal de pressões e contrapressões, em que as palavras valem pela carga emocional acumulada, com pouca ou nenhuma referência aos dados correspondentes na experiência real de falantes e ouvintes. A mais alta função da linguagem — a transposição da realidade em pensamento abstrato e o retorno deste à realidade, como instrumento de iluminação da experiência — fica assim bloqueada, restando apenas, de um lado, a expressão tosca e direta de desejos e temores e, de outro, a imposição de reações estereotípicas, como os comandos emitidos por um amestrador de bichos que não espera de seus amestrados nenhuma compreensão racional, apenas a obediência automática, sonsa, impensada.
As causas desse estado de coisas remontam à “contracultura” dos anos 60, sob cuja influência formou-se boa parte da mentalidade dos homens que hoje dirigem o país. Enquanto pura expressão do protesto juvenil ante um mundo complexo demais, a contracultura pode ter exercido alguma função positiva, como estímulo crítico à renovação do legado milenar que legitimava, cada vez mais da boca para fora, a cultura dominante. Transmutada ela própria em cultura dominante, a onda contracultural cristalizou-se em inversão compulsiva, mecânica e burra, de todos os valores e de todos os princípios. No prazo de uma geração, os mais altos conhecimentos, as mais ricas e delicadas funções da inteligência, os valores mais essenciais da racionalidade, da moral e das artes cederam lugar à repetição maquinal de slogans e chavões carregados de ódios insensatos, boa somente para despertar aquela obediência servil extremada que, para maior satisfação do manipulador, se camufla sob afetações de espontaneidade e rebeldia no instante mesmo em que tudo cede às injunções de quem manda.
Se é com essas ferramentas que a ilustríssima elite pensa em preparar a nação para o futuro, não veremos uma tragédia, mas uma cômica e destrambelhada catástrofe à brasileira.