
Publicado em 23 de Março de 2026
É preciso ser justo e admitir que o governo Lula faz certas coisas com maestria e ninguém fala sobre isso. A mais impactante delas, mais até que o desastre econômico que sempre marca as gestões petistas, é como ele administra o medo. Não combate nem erradica, mas administra. O PT cuida para que o nível de terror nas ruas seja tolerável o suficiente para não derrubar seus candidatos das pesquisas, mas insuficiente para que algum governante faça algo substancial contra o crime.
É uma arte petista, convenhamos.
Por três vezes o Brasil foi às urnas, elegeu o mesmo projeto e a mesma promessa de que o crime é culpa do capitalismo, da desigualdade, da falta de “políticas estruturantes”, de Bolsonaro, da herança maldita, da lua em Escorpião. O único saldo que esse pensamento trouxe foi o fato do brasileiro não sair de casa depois das oito da noite por medo de não voltar.
Há uma espécie de seita no Brasil cujos membros acreditam que nenhum criminoso é culpado pelo que faz, do assaltante que teve uma infância difícil ao feminicida que é apenas uma vítima da masculinidade tóxica. A responsabilidade individual dos bandidos é, hoje e historicamente, uma bandeira que só a direita tem coragem de empunhar. Porque, no Brasil real, as pessoas não são “indivíduos”, são pessoas. Pessoas comuns que têm mãe, vizinho, padre, time de futebol. E se você sabe que quando alguém rouba, agride ou mata, a resposta precisa ser uma punição dura e proporcional, por que é que a esquerda continua a te tratar como louco ao dizer que não é?
Lula passou três mandatos prometendo um Ministério exclusivo de Segurança Pública. Essa promessa virou um horizonte político para onde se caminha em uma direção, mas nunca se chega. Enquanto isso, desfilaram pela pasta uma sequência de ministros com a convicção de que segurança pública é, fundamentalmente, um problema de direitos humanos mal resolvidos.
Flávio Dino foi o grande expoente dessa turma. Um homem que conseguiu a façanha de, diante de uma crise de violência, dizer que o verdadeiro problema era a polícia. Toda operação ficou sob suspeita e todo confronto virou uma potencial execução sumária. Enquanto isso, as famílias do Nordeste assistem suas cidades se tornarem territórios do PCC e do Comando Vermelho, porque alguém em Brasília estava muito ocupado garantindo que ninguém ferisse a sensibilidade dos que portam fuzis.
O resultado está no Anuário de Segurança Pública de 2025: 87.545 estupros, 1.492 feminicídios, 60 mil crianças vitimadas por violência. Esses números não são de vítimas abstratas, são pessoas com nome, rosto e mães que choram. Como já se disse, são pessoas. Mas que, no relatório do governo, viram “dados preocupantes que demandam políticas intersetoriais”.
O que mais preocupa o brasileiro é algo que não aparece em nenhum indicador: o hábito perdido. A sociedade não é sustentada por teorias nem ideias, mas por hábitos: pelo costume de sair à rua sem medo, de deixar a criança brincar na calçada, de conversar com o vizinho no portão depois do jantar. De confiar que outros à sua volta não vão te machucar.
Tais hábitos levam gerações para se construir e poucos anos para se desfazer. O brasileiro de 2026 já não tem mais o hábito da rua. Aprendeu, no corpo, que o espaço público é perigoso. A ideologia dos governos petistas destruiu a sociedade brasileira, e ainda torna um exercício de vida ou morte tentar reconstrui-la. Esse é o saldo final da política de segurança pública da esquerda.
Três mandatos para chegar a isso. Valeu a pena?