
Publicado em 06 de Março de 2026
Para discutir a política do dia é preciso recorrer ao vocabulário corrente e consensual, ou o discurso corre o risco de não ser público, não ter adesão e deixar de ser propriamente político. Descrever quem é o inimigo público e explicar o porquê exige, intrinsecamente, que isso seja feito em linguagem corrente, no mesmo nível do público que há de receber o discurso.
Uma direita que esteja presa às discussões mesquinhas sobre quem é amigo ou inimigo da moralidade, dos bons princípios e de qualquer outra embalagem provável para a construção de uma boa aparência diante do público está fadada a utilizar as ferramentas linguísticas e as imagens imaginativas criadas por seu principal inimigo: a grande mídia institucionalizada.
A grande mídia oficializou um conjunto de jargões e expressões públicas que não têm qualquer relação com a realidade nacional, fazendo refém qualquer movimento político que queira ser superficial, eleitoreiro e popular. É notável a voracidade com que a mídia oficial cobra moderação de todos os agentes da direita.
Ora, toda “moderação” é a escolha de equilibrar-se entre dois extremos, tendo a finalidade de preservar uma postura prudente; mas que prudência está sendo exigida aqui? Qual é o extremo que retira os quadros da direita do caminho de defesa da justiça ou da liberdade? Pedidos de moderação, acusações de extremismo e radicalismo não passam de reação natural da grande mídia, que está tentando adequar os agentes públicos ao seu vocabulário restritivo, castrador e delirante.
Mas, para além da reação natural da mídia institucionalizada e financiada pelos donos do poder, existe a assustadora reação da nascente direita brasileira, que se apressou em se adequar ao vocabulário ginasial e pavloviano da grande mídia. Ora, quem cogita utilizar termos tão baixos e vulgares para descrever os fenômenos políticos e sociais atesta sua incapacidade de articular — ou de contribuir para — um projeto de reconstrução nacional.
Os homens públicos que estão presos nesse vocabulário midiático, ou mesmo utilizando expressões dignas de novela mexicana — quem julga que ações de agente A ou B são motivadas por vingança pessoal, inveja ou qualquer outro sentimento baixo, sem relacionar as ações de um agente público com a aniquilação de inimigos ou com o acúmulo de poder —, estão usando a camisa de força criada pela grande mídia e não podem ser uma oposição efetiva ao PT.
É possível, usando esse vocabulário e essas categorias, formular políticas e discursos que combatam o projeto de governo mundial? Ou mesmo qualquer outra das agendas que hoje em dia mantêm o Brasil subdesenvolvido? Jamais.
Mas essa não é a grande preocupação dos quadros da direita permitida que está se articulando para tentar substituir o bolsonarismo; abusam do principal traço mental do homem medíocre: a convicção inabalável de que tudo o que vá contra as crenças habituais do seu grupo de referência é loucura, sonho, infantilidade ou teoria da conspiração.
Nesse caso, a nova direita permitida que ascende ao debate público não tem outro papel senão devolver à esquerda petista e ao complexo de ONGs o antigo monopólio da guerra ideológica.
Uma direita presa aos jargões da grande mídia e intelectualmente castrada é o inimigo perfeito para a esquerda nacional, uma vez que, combatendo um inimigo inofensivo, pode recuperar seu prestígio derrotando um adversário inapto e sem agenda de longo prazo.