O personagem oco

Publicado em 23 de Fevereiro de 2026

No Brasil cultivou-se o péssimo hábito de fazer a vida política nacional girar em torno de picuinhas e miudezas, habituando o público a escândalos e dramas dignos de novela de baixo orçamento. Mas, além dos escândalos dos donos do poder, das tramoias e camas de gato, há uma nova categoria de fotografia política: a agitação retórica, vazia de efeitos e oca de significado.

A ascensão do bolsonarismo possibilitou a entrada de novos personagens no teatro das oligarquias: alguns tentando romper o teatro puxando suas cortinas, enquanto outros preferem discursos vazios e inflamados, ações simbólicas cheias de significado e nenhum resultado efetivo.

A exigência mais elementar da comunicação verbal é que, caso se pretenda que as afirmações versem sobre realidades e não sobre meras palavras, é preciso possuir uma adequada representação mental do objeto antes de poder enunciar a respeito dele um só juízo, ainda que hipotético. Mesmo que a realidade em questão seja puramente imaginária, é preciso imaginá-la corretamente para não sair construindo raciocínios e argumentos sem conteúdo representativo correspondente.

Quando se recolocou em circulação no Brasil não apenas o estudo da arte de argumentar — da qual imediatamente os sofistas de plantão começaram então a falar no tom de quem tivesse longa experiência do assunto —, mas também se abriu a possibilidade de contrapor a hegemonia petista com “princípios e valores cristãos”, apresentando-os como mera oposição e sem jamais expressar sua substância, nasceu esse novo papel no teatro das oligarquias: o do agitador analfabeto. Se essa cultura dos debates for levada ao limite — como convenientemente está sendo —, dois argumentos perfeitamente iguais podem expressar ideias diferentes, uma verdadeira, a outra falsa, conforme a representação mental por trás de cada uma. Não existem “sentenças” verdadeiras e falsas: verdadeiro ou falso é o juízo por trás da sentença, o que se está efetivamente pensando — e, ao pronunciar uma sentença aparentemente verdadeira, pode-se não estar pensando nada, ou então pensando uma falsidade completa que, por coincidência, se exprima com as mesmas palavras de um juízo verdadeiro.

Mas é evidente que a análise visa descobrir a realidade vivida e pensada no fundo de uma formulação verbal, não contestar ou abonar uma afirmação. Argumentos só são possíveis depois que a análise certificou que ambos os interlocutores têm uma representação mental idêntica do objeto em discussão. Aí, cada um pode discutir se as conclusões que o outro tira do objeto assim representado correspondem ou não à realidade, à experiência, aos testemunhos etc.

Mas, na maior parte dos casos, o que se descobre é que o interlocutor não tem representação nenhuma; tem, no máximo, um esquema verbal que designa convencionalmente o objeto. Mostrar isso não é, de maneira alguma, “argumentar”: é mostrar que o interlocutor não tem condição de argumentar nada sobre o objeto da discussão, apenas sobre palavras.

Pior ainda quando as palavras que substituem o objeto ausente vêm associadas a valores emocionais, e o fulano acha que, ao defender estes últimos, está “argumentando”. Infelizmente, foi isso o que aconteceu na quase totalidade das discussões em terras tupiniquins, e é por isso que há tanta animosidade e paixão na defesa de certos cabeças de vento ungidos como lideranças.

Mas até quando o bolsonarismo tolerará esse tipo de personagem? Por que ainda se toleram políticos tão vazios e sem propostas?

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