O juízo político dos infantilóides

Publicado em 14 de Fevereiro de 2026

É típico de intelectos infantilizados não compreenderem os efeitos de suas ações: uma criança pode querer não dormir, sem compreender que a privação de sono fará um mal tremendo à sua saúde, ou que arremessar pratos de porcelana como discos será desastroso.

No caso de intelectos fisiologicamente desenvolvidos, mas ainda assim imaturos — isto é, adultos que desenvolveram o cérebro, mas não a inteligência —, guardadas as devidas proporções, existe um fenômeno muito semelhante: pessoas que tomam decisões baseadas em seu estreito horizonte de consciência e, com o desenrolar dos fatos, culpam fatores extrínsecos por sua desgraça, pois não têm a capacidade de compreender que suas escolhas são a causa de sua derrocada.

É comum ver pessoas adultas que não sabem como chegaram a determinado estado de degradação humana, muito menos como sua vida se desenvolveu. E, geralmente, é esse tipo de pessoa que quer ter razão ao opinar desde a escalação da seleção brasileira até decisões complexas sobre políticas públicas.

Ou seja, existe uma falta de consciência autobiográfica: as pessoas não sabem contar a própria vida, não têm noção do encadeamento de causas e efeitos que foram produzindo a sua situação atual. Se nunca fez isso com relação a si mesmo, não conseguirá fazer com relação a mais ninguém. Sobretudo, não conseguirá fazê-lo com pessoas que têm um poder de ação superior, que têm um raio de ação maior. Ao se tomar qualquer político, qualquer general, é evidente que as ações desses indivíduos têm uma repercussão, um círculo de efeitos muito maior. E, se não consegue analisar a coisa nem no plano pequeno, que é o da própria autobiografia, muito menos entenderá a do outro.

Então, sobretudo nos momentos de crise, em que os acontecimentos se precipitam, começam a surgir interpretações que não são nada mais do que expressão do estado subjetivo — aquilo que se sente, aquilo que se quer, aquilo que se teme etc. —; e é claro que, entre um milhão de pessoas expressando sentimentos subjetivos, não pode haver diálogo. Porque não existe sequer uma medida comum — não se está falando das mesmas coisas —, então não há como debater; o debate simplesmente não existe.

No Brasil — e, mais especificamente, em círculos internéticos do movimento patriótico —, em muitos casos a discussão é a mera expressão anárquica desses sentimentos. É raro encontrar alguém que esteja entendendo um pouco do que está acontecendo. Por isso vemos narrativas sem o mínimo de lastro na realidade sendo defendidas com unhas e dentes, pura e simplesmente porque essas narrativas são a expressão dos sentimentos que fluem anarquicamente no estreito horizonte de consciência de muitas pessoas.

Pessoas que acreditam que Bolsonaro teve meios de ação em meio à crise institucional brasileira têm um claríssimo sentimento de insatisfação para com o mandato presidencial, alimentando a ilusão de que uma sucessão de erros e infantilidade tiraram Jair da cadeira presidencial — e não um golpe de Estado articulado desde o exterior.

Visualizar o aparato de poder de um governo não eleito no Brasil, que tomou o poder por meio de ações criminosas, é realmente desconfortável; é mais palatável crer que atores de Hollywood fizeram campanha contra Bolsonaro porque as besteiras ditas por eles durante a pandemia deixaram suas consciências pesadas.

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