
Programas sociais aliviam a pobreza. Produção estruturada elimina a pobreza.
Rodrigo Paz construiu sua campanha na Bolívia sobre uma distinção clara. Após quase duas décadas de um modelo baseado em subsídios e centralização, Paz apresentou ao eleitor uma nova perspectiva: a prosperidade individual cresce na medida em que a economia permite maior retorno pelo trabalho. O slogan — “capitalismo para todos” — reconhecia uma realidade latente: a maioria dos bolivianos já exercia o capitalismo por necessidade, embora operasse à margem de um Estado que dificultava a inclusão na economia formal.
Os números validam essa visão. Na Bolívia, 85% da economia é informal, refletindo um cenário onde o aparato estatal muitas vezes atua como barreira em vez de ponte. O caso do lítio exemplifica esse paradoxo: o país detém um quinto das reservas mundiais, mas arrecada apenas US$ 6 bilhões com mineração, enquanto Peru e Chile alcançam US$ 50 bilhões e US$ 65 bilhões, respectivamente. Durante anos, a estatal YLB manteve o controle centralizado, priorizando contratos fechados e a manutenção da soberania como um símbolo estático, em vez de converter a riqueza mineral em renda direta para a população.
Paz propôs uma nova lógica baseada em parcerias de risco equilibradas (50-50) com investidores estrangeiros e na modernização dos marcos regulatórios. Ao redirecionar os recursos antes destinados ao subsídio de combustíveis — que consumiam até US$ 2,5 bilhões anuais e alimentavam o contrabando transfronteiriço —, ele priorizou investimentos diretos no capital humano. O resultado foi o aumento do salário mínimo em 20% e a ampliação de pagamentos focalizados a estudantes e idosos. A mensagem política foi nítida: a riqueza deve chegar diretamente a quem produz, eliminando intermediações ineficientes.
Esse raciocínio encontra eco no Brasil, onde setores da economia ainda operam sob a lógica da extração. Muitas vezes, a estrutura econômica privilegia o ganho rentista ou modelos de exportação que isolam a renda, em vez de promover o desenvolvimento do entorno. Nesse cenário, os programas sociais acabam servindo como uma compensação paliativa para uma economia que ainda busca distribuir melhor os frutos do trabalho.
Foi exatamente dessa armadilha que Paz propôs libertar a Bolívia. Em sua campanha, resgatou o conceito aymara “qamiri” — abundância — e afirmou ao Financial Times: “Ser rico é um valor positivo em nossas sociedades.” Em vez de focar apenas em cortes, ele defendeu que o Estado deve ser o facilitador da produção para aqueles que hoje estão na informalidade. Trata-se de um projeto de desenvolvimento com participação estatal na renda, focado na expansão e na inclusão.
A sustentabilidade dessa política depende da agilidade em expandir a produção para atender às expectativas sociais. Contudo, o debate proposto por Paz atravessa fronteiras. No Brasil, lideranças como Flávio Bolsonaro enfrentam o mesmo desafio: escolher entre manter a gestão da escassez ou reorientar a força do Estado para a expansão produtiva e o emprego formal. Paz trilhou esse caminho e obteve o aval do eleitor.
Resta saber se o Brasil optará por continuar administrando a escassez ou se passará a construir a abundância.