
Publicado em 11 de Fevereiro de 2026
Existe uma parcela da direita brasileira que morre de saudade da primeira década do século XXI, quando as derrotas se acumulavam diariamente e era socialmente execrável ser de “direita”. Isso porque essa trupe, além de posar como mais moderada e sem veneração à figura política de Bolsonaro, vive criticando o exercício da liderança do ex-presidente e de seus filhos. Essa direita mais moderada — que só falta gritar aos quatro ventos que é antipetista, mas não é bolsonarista —, mansa e palatável para o establishment nacional e seus porta-vozes, tenta a todo custo reduzir a oposição ao PT à antiga dinâmica de burocratas neutros e técnicos, combatendo criminosos e comunistas que politizam até as tirinhas de jornal lidas no café da manhã, ou mesmo memes em redes sociais.
Essa parcela da direita sente falta do tempo em que se dizia que “direita e esquerda são noções ultrapassadas”, mas a roubalheira do PT e a popularidade e viabilidade eleitoral do bolsonarismo a empurraram para a direita. Essa frase era o lugar-comum da direita despolitizada, sem lideranças carismáticas, que se informava pela revista Veja.
Ainda assim, o membro dessa direita viciada na derrota e no escrutínio notabiliza-se pela absoluta inexistência de qualquer conflito entre a tranquilidade soberana com que assegura que o comunismo morreu e a solicitude temerosa com que busca aplacar as exigências do falecido mediante polpudos cheques para projetos educacionais de doutrinação esquerdista, para a campanha do PT, para os prêmios culturais dados aos ídolos da esquerda.
Visto da esquerda, esse é o direitista ideal, o direitista que os comunistas pediram — ou pediriam, se fossem crentes — a Deus. Além de alimentar com sua conta bancária os empreendimentos da revolução em marcha e protegê-los sob o manto de invisibilidade das almas do outro mundo, ele ainda consente em oferecer sua própria pessoa como máximo exemplo comprobatório do argumento comunista, desempenhando de bom grado o papel do gorducho fominha, a imagem didática do burguês enfatuado, egoísta e interesseiro, que o doutrinador marxista pode, com a certeza do fácil sucesso oratório, exibir a militantes boquiabertos como protótipo do inimigo odioso e desprezível a ser varrido da face da terra pela revolução salvadora.
Outra vantagem indiscutível que a rotunda presença desse personagem na ala direita do palco oferece aos ocupantes da ala contrária é que, uma vez identificado o seu perfil com o da direita enquanto tal, qualquer direitista um pouco diferente dele que se apresente — por exemplo, um direitista que tem apreço pela liderança de Bolsonaro, que crê na polarização entre criminosos e bons cidadãos, mal e bem, preferindo entrar nesse combate a representar alegremente o papel do palhaço da história — acabará parecendo um tipo estranho, não terá como ser catalogado e facilmente será expelido para o domínio do anormal, do inaceitável, do absurdo. Não havendo nome específico para esse homem sem personalidade, que respeita lideranças e hierarquia política, no vocabulário corrente, o jeito será apelar à ampliação quantitativa e carimbá-lo: “extrema-direita”.
Uma direita despolitizada, que pouco dialoga com o cidadão comum, é o produto mais típico da hegemonia esquerdista triunfante. Nenhuma oposição é tão confortável para o comunista que a tudo politiza, quanto o técnico que busca inocentemente a neutralidade absoluta.