
Publicado em 09 de Fevereiro de 2026
Durante décadas, o Brasil operou sob a premissa de que a globalização era um processo linear e irreversível. A crença de que cadeias produtivas se integrariam cada vez mais, de que barreiras cairiam naturalmente e de que o comércio internacional funcionaria como campo neutro moldou decisões econômicas e diplomáticas por gerações. Esse cenário se encerrou. O contexto atual é de reorganização das cadeias globais, proteção ativa de setores sensíveis e disputa direta por capacidade produtiva. Quem insiste em diagnósticos antigos tende a perder relevância com rapidez.
A desglobalização não representa o fim do comércio internacional, mas a sua reconfiguração sob novas regras. Estados Unidos, Europa e China abandonaram a lógica da interdependência ingênua e passaram a proteger cadeias críticas, subsidiar setores estratégicos e impor barreiras regulatórias com objetivos claros de soberania econômica. Estratégias como friendshoring, nearshoring e políticas industriais defensivas deixaram de ser exceção e passaram a estruturar decisões de investimento. Tratar esse movimento como retrocesso ideológico é ignorar o ambiente de negócios que já opera de forma concreta no cenário internacional.
Nesse contexto, o modelo brasileiro apoiado na expansão do consumo interno apresenta sinais claros de esgotamento. Crescimento sustentado por crédito, estímulos temporários e endividamento das famílias possuem limites econômicos objetivos, e o país se aproxima deles. A baixa taxa de poupança, a produtividade estagnada e a fragilidade da base industrial reduzem a capacidade de sustentar ciclos prolongados de expansão. Sem ganho de eficiência e sem formação consistente de capital, o consumo funciona como motor de curto prazo, com custo fiscal crescente e impacto cada vez menor sobre a economia real. O próximo ciclo de crescimento não tende a vir desse vetor, mas do investimento produtivo, da ampliação da capacidade instalada e da inserção estratégica nas novas cadeias globais.
O problema é que o Brasil ainda se comporta como se pudesse aguardar o retorno de um ambiente internacional que já não existe. Essa postura tem custo elevado. Em um cenário de desglobalização, a neutralidade deixou de ser posição confortável e passou a representar fragilidade estratégica. Países que não se reposicionam acabam ocupando espaços residuais, exportando commodities com baixo valor agregado e importando tecnologia sem domínio relevante sobre processos e cadeias produtivas. O Brasil, por sua escala territorial, base produtiva e papel central na segurança alimentar global, possui condições objetivas de se colocar como parceiro relevante nessa nova configuração. Isso exige decisão política, coordenação institucional e clareza estratégica, sem retórica, sem inércia.
Reposicionar-se implica repensar o aparato estatal, a política externa e a estratégia econômica de forma integrada. A questão não é alinhar-se automaticamente a este ou àquele bloco, mas compreender que o sistema internacional deixou de operar com base em regras universais e passou a funcionar por interesses explícitos. Investimento produtivo flui para ambientes que oferecem direção clara, previsibilidade institucional e capacidade de execução. Países que hesitam tendem a transmitir risco aos agentes econômicos.
Investimento não é ato de fé nem aposta de curto prazo. Trata-se de uma decisão racional baseada em ambiente, risco e previsibilidade. Em um mundo que já reorganizou suas cadeias produtivas, países que ajustam suas estruturas internas de forma consistente tendem a atrair capital de maneira estável. O desafio do Brasil, portanto, é menos retórico e mais prático: ajustar suas estruturas a um cenário que já está em funcionamento.