
Publicado em 12 de Janeiro de 2026
Quando um fundo americano anuncia que levantou bilhões com o objetivo explícito de investir em setores estratégicos do próprio país, isso não provoca escândalo. Provoca concordância ou discordância, como deveria ser. A intenção não é tratada como anomalia. Nos Estados Unidos, esse tipo de decisão é compreendido como parte normal do funcionamento de uma potência que sabe onde quer chegar.
O movimento recente da Andreessen Horowitz não inaugura uma novidade conceitual. Apenas torna visível algo que sempre esteve presente nas economias centrais: capital, tecnologia e poder nunca operaram de forma neutra. A diferença é que, agora, essa relação deixou de ser disfarçada. Não se busca fingir autonomia absoluta do mercado nem esconder direção estratégica sob linguagem técnica. A prioridade nacional é assumida como tal.
Isso não tem relação com dirigismo estatal nem com planejamento central. Trata-se de hierarquia entre esferas. O mercado atua com liberdade, mas não sem dever. O capital circula, investe e assume riscos, porém dentro de uma ordem em que a continuidade do país, sua capacidade produtiva e sua posição estratégica não são variáveis externas. O Estado não executa tudo, mas define o sentido. O mercado não governa, mas responde.
No Brasil, essa hierarquia foi perdida. Aqui, qualquer tentativa de aproximar investimento e interesse nacional tende a gerar reação defensiva imediata. O debate raramente começa pelo mérito econômico ou estratégico. Começa pela suspeita. Antes de se discutir se a iniciativa faz sentido para o país, avalia-se se ela representa algum tipo de desvio político, simbólico ou institucional.
Esse comportamento não é exceção. Tornou-se padrão. Consolidou-se uma cultura em que coordenação é confundida com captura, e propósito coletivo, com ameaça. O resultado é um mercado que opera desde que se mantenha autocentrado, restrito ao curto prazo e desvinculado de qualquer responsabilidade mais ampla. Rentabilidade é aceita. Direção é vista com desconfiança.
Forma-se, assim, um paradoxo. O Brasil não rejeita o mercado, mas rejeita a ideia de país. Tolera o capital enquanto ele não formula ambição. Aceita eficiência financeira, mas bloqueia a construção de capacidades estratégicas. Não por falta de recursos ou instrumentos, mas por um reflexo institucional que transforma toda tentativa de ordem em problema.
As economias centrais avançam não porque tenham resolvido a tensão entre Estado e mercado, mas porque nunca permitiram que essa tensão destruísse a hierarquia entre as esferas. Entenderam que liberdade econômica não equivale à ausência de dever, e que neutralidade absoluta é uma ficção cara em um ambiente de competição aberta.
O bloqueio brasileiro não é técnico nem econômico. É civilizacional. O problema não está no mercado nem no Estado, isoladamente, mas na incapacidade de admitir que ambos só funcionam quando subordinados a uma lógica de país.