
Publicado em 10 de Janeiro de 2026
Sempre que um governo interfere no sistema financeiro, o debate público costuma correr para dois atalhos fáceis. Uns gritam populismo, outros denunciam violação do livre mercado. O problema é que essa disputa moral quase sempre esconde o funcionamento real das economias modernas. Grandes mercados financeiros nunca existiram sem algum grau de coordenação estatal. A diferença nunca esteve entre intervir ou não intervir, mas em quem controla os instrumentos e com qual objetivo.
Foi nesse cenário que Donald Trump anunciou uma medida que gerou ruído tanto entre liberais quanto entre progressistas. Em vez de agir por meio do banco central, determinou que as agências hipotecárias americanas comprassem centenas de bilhões de dólares em títulos ligados ao crédito imobiliário. O objetivo declarado foi reduzir as taxas de financiamento habitacional e aliviar o custo das parcelas para quem compra imóveis.
Na prática, trata-se de interferência direta no preço do crédito, usando o balanço de instituições parafiscais que já existem. Não é impressão de dinheiro no sentido clássico, nem mudança de juros básicos. É uma ação cirúrgica sobre um mercado específico, com efeitos relativamente rápidos.
Por isso, tal medida não pode ser chamada de ajuda social. Ela não transfere renda para famílias de baixa renda, não resolve o problema estrutural de acesso à moradia e não reduz o preço dos imóveis. O que faz é aliviar o custo financeiro para quem já está dentro do sistema de crédito. Em vez de redistribuir renda, redistribui liquidez e risco dentro do próprio sistema financeiro. Quem não consegue financiar antes continua de fora depois.
Mas também não faz sentido enquadrar essa ação como violação excepcional do livre mercado. O mercado imobiliário americano funciona há décadas apoiado em garantias públicas, agências estatais e compras de ativos em momentos de estresse. O preço do crédito habitacional nunca foi resultado exclusivo de oferta e demanda privadas. A diferença agora é menos técnica e mais política.
O objetivo é outro: estabilização sistêmica. O mercado imobiliário é uma peça central da economia americana. Uma correção abrupta afeta bancos, fundos, consumo e confiança. Ao sustentar o crédito, o governo reduz a probabilidade de uma reação em cadeia que poderia contaminar o restante do sistema. Não é justiça social, nem respeito a dogma de mercado. É administração de risco político e financeiro.
O que incomodou o establishment não foi a intervenção em si, mas a quebra do ritual institucional. Não partiu do banco central, não veio revestida de linguagem técnica neutra e não fingiu ser uma decisão puramente econômica. Foi uma escolha política assumida como tal. Isso expõe algo desconfortável: boa parte da chamada neutralidade do sistema financeiro é performática.
Nada disso significa que governos devam copiar a medida automaticamente. O ponto é outro. Mercados complexos sempre são administrados. A questão é se isso acontece de forma explícita, com responsabilidade política, ou escondido atrás de jargões técnicos que fingem ausência de escolha. O erro nunca foi o Estado agir. Foi vender a ilusão de que ele não age.