O Mito do Painho Estadista

Publicado em 04 de Janeiro de 2026

A elite brasileira e as vozes do debate público nacional tentaram, a todo custo, sustentar um mito político de que Lula era um hábil negociador, homem de prestígio internacional por sua articulação, retórica e resistência anti-imperialista. Por motivos óbvios, não era possível admitir que uma quadrilha havia chegado ao poder e que Lula nada mais era do que um agitador profissional que servia como testa de ferro de um projeto de dominação da América Latina. O “líder do sul global” não fez nada mais, nada menos, do que distribuir dinheiro de impostos para ditaduras pelo Terceiro Mundo, enquanto atendia aos interesses desses mesmos imperialistas que jurava combater.

Essa ilusão sequestrou a consciência de boa parte da elite e da classe média, que se sentiu impotente diante do projeto nefasto do PT e de seu líder público. 

Quando alguém percebe o mal como uma espécie de força avassaladora e praticamente invencível, essa estimativa exagerada não apenas inflama o sentimento de perigo, mas compromete o próprio discernimento moral e a capacidade de agir. Nesse tipo de percepção, o mal deixa de ser uma realidade a ser enfrentada com coragem e autoconsciência, transformando-se em um espectro intimidante cuja simples concepção induz medo, resignação e uma espécie de inanição ética, de modo que a pessoa acaba por evitá-lo, não por avaliação racional, mas por incapacidade de manter firmeza de propósito diante dele, exibindo uma forma de paralisia moral em que o medo — nascido de uma visão hiperbólica do mal — suprime a ação responsável e impede a resistência efetiva ao que é errado ou prejudicial, porque a visão de um mal “todo-poderoso” cria uma expectativa de impotência antes mesmo de qualquer confronto real.

O PT soube criar uma imagem de partido onipotente e invencível no campo político, ocultando seus crimes e mantendo o verniz democrático de suas ações com a cumplicidade da mídia, quase parecendo a encarnação do mal para uns, e o único partido comprometido com o bem comum para outros. Mas, diante das mudanças tectônicas na política latino-americana, Lula demonstra ser apenas um criminoso desorientado e inocente, o suficiente para apelar ao direito internacional e, ademais, princípios da ordem mundial baseada em regras.

Assiste-se ao guerreiro que combateu o imperialismo ianque durante toda a carreira apelar justamente para os princípios e regras que fundamentam o imperialismo americano. O negociador de excelência e estrategista “painho” não compreende que a ordem baseada em regras colapsou e que se adentra uma nova ordem internacional. As regras do multilateralismo não são mais respeitadas; as cadeias que integram a economia mundial demandam uma reformulação, e o interesse de Estado voltou a ser discutido.

Os EUA, compreendendo essa reformulação geopolítica, não vão projetar seu poder para além da América Latina — não sem recuperar a influência e expulsar a China. Os EUA voltaram os olhos para a América Latina e, por isso, o grande fator de instabilidade para a região sofreu uma intervenção militar.

O Brasil, como principal liderança da América Latina, poderia ter negociado a renúncia de Maduro diante do escândalo das eleições passadas, mas o Lula,  esse grande estrategista,  não previu que tal intervenção fosse possível e tentou de toda forma manter o aliado no poder.

É provável que Maduro delate seus comparsas do Foro de SP, e essa intervenção acabará afetando Lula e as relações entre Brasil e EUA. Mas, desde agora, já se vê o mito político de Lula sendo desconstruído e o poder aparentemente absoluto do PT sendo comprovadamente limitado. O mal não vencerá dessa vez.

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