
Publicado em 03 de Janeiro de 2026
Todos os dias os coletes da Faria Lima aproveitam as filas quilométricas que pegam para pregar sobre a “eficiência de mercado”, a “vantagem comparativa” e aquele velho ídolo de barro, a “mão invisível”, para quem for mais incauto, como se a História tivesse acabado em 1990, onde as fronteiras eram sugestões antiquadas e a soberania nacional era um fetiche sujo de populistas.
Mas a realidade tem o hábito desagradável de aparecer sem ser convidada, e muitas vezes nas horas mais surpreendentes. Eis que a China anuncia cotas e tarifas draconianas sobre a carne bovina brasileira porque decidiu que a segurança alimentar de seu povo vale mais do que os lucros dos frigoríficos brasileiros.
E o que acontece na Faria Lima? Ocorre um insight acidental. Em um relatório recente do BTG Pactual sobre as taxas da China, uma sequência de frases chamou a atenção:
“A história nos ensinou que nenhum país está disposto a depender por muito tempo de importações de energia ou alimentos. É exatamente disso que parece se tratar.”
Esse tipo de admissão, que para uma pessoa sensata parece óbvia, soa estranho justamente por vir de quem vive de apostar que o livre comércio é um imperativo moral e que proteger a indústria doméstica é heresia. Mas, uma vez confrontados com o exercício do poder soberano por um Estado, nossos banqueiros subitamente começam a soar como Hamilton reencarnado.
A Faria Lima agora enxerga, com uma candura quase infantil, que a China quer incentivar a produção doméstica e que a soberania triunfa sobre o preço. O próprio Alexander Hamilton alertava, lá no século XVIII, que “Não apenas a riqueza, mas a independência e a segurança de um país, estão materialmente conectadas à prosperidade das indústrias”. A Faria Lima, que sempre tratou isso como uma relíquia ao incentivar a “Economia Devedora”, demonstra por um breve minuto entender que o mundo não é um “mercado global” de amigos, mas uma arena de predadores. A China entende a realpolitik de que, ao proteger o que é seu, ela garante que terá o que comer amanhã – enquanto o Brasil, guiado por sua elite financeira, continua vendendo o almoço para pagar o jantar.
A ironia suprema é que os financistas só diagnosticam o problema quando o lucro deles é ameaçado pela verdade fundamental descrita por Thomas Jefferson que tentaram, a todo custo, enterrar ao longo dessas décadas: “O poder é real, a economia é apenas a sombra que ele projeta.”
Tanto Jefferson quanto Hamilton sabiam que a liberdade política sem independência econômica é uma farsa, e que o “livre comércio” é uma arma que as potências hegemônicas usam para manter as colônias na lama. A China sabe disso. Apenas o Brasil, deslumbrado, insiste em não saber.
Isso tudo serve como introdução a vocês, novos e acidentais companheiros hamiltonianos. Sejam bem-vindos ao deserto do real. É uma pena saber que esse conhecimento durará apenas até o próximo trimestre fiscal, quando voltarão a pregar a destruição da indústria local em nome da “competitividade”.
Mas, de qualquer maneira, o aviso está dado. O Brasil continua carregando a crença no globalismo liberal consigo para todos os lugares, fingindo que ele ainda reluz como ouro. Talvez o tapa na cara vindo de Pequim nos faça despertar para a escolha entre ser um jogador ou ser o tabuleiro. A Faria Lima acabou de descobrir que somos o tabuleiro – resta saber se farão algo a respeito, ou se apenas ajustarão as margens de lucro enquanto as peças se movem sobre suas cabeças.