A importância de ter ideias

Publicado em 02 de Janeiro de 2026
Se existe um erro que foi sistematicamente cometido pelo movimento patriótico do Brasil, é o de subestimar a capacidade humana de aderir racionalmente à barbárie e à destruição. Capitalizar a insatisfação do cidadão comum com o sistema opressor e burocrático do Estado de Direito brasileiro não pode ser pretexto para a adesão a um niilismo político sem agenda propositiva. A necessidade de se opor ao sistema vigente não pode ser pretexto para a não articulação de um projeto nacional substitutivo à política atual.

Na introdução à Filosofia do Direito, G. W. F. Hegel explica que uma das capacidades essenciais do ego humano é a de suprimir mentalmente todo dado exterior ou interior, quer este se imponha como presença física ou por quaisquer outros meios — a capacidade, em suma, de negar o universo inteiro e fazer da consciência de si a única realidade. Se não fosse essa faculdade, haveria prisão no círculo dos estímulos imediatos, como os animais, e não haveria acesso aos graus mais elevados de abstração. A negação do dado — “a irrestrita infinitude da abstração absoluta ou universalidade, o puro pensamento de si mesmo”, segundo Hegel — é uma das glórias peculiares da inteligência humana.

Quando o ego vivencia a negação abstrativa como uma experiência de liberdade e a autodeterminação da vontade se apega a essa experiência, prossegue Hegel, “então temos a liberdade negativa, a liberdade no vazio, que se ergue como paixão e toma forma no mundo”. Vale a pena citar o parágrafo por extenso, tal a sua força analítica e profética:

“Quando [essa liberdade] se volta para a ação prática, ela toma forma na religião e na política como fanatismo da destruição — a destruição de toda a ordem social subsistente —, como eliminação dos indivíduos que são objetos de suspeita e a aniquilação de toda organização que tente se erguer de novo de entre as ruínas. É só destruindo alguma coisa que essa vontade negativa tem o sentimento de si própria como existente. É claro que ela imagina querer alcançar algum estado de coisas positivo, como a igualdade universal ou a vida religiosa universal, mas, de fato, ela não quer que esse estado se realize efetivamente, porque essa realização levaria a alguma espécie de ordem, a uma formação particularizada de organizações e indivíduos, ao passo que a autoconsciência daquela liberdade negativa provém precisamente da negação da particularidade, da negação de toda caracterização objetiva. Consequentemente, o que essa liberdade negativa pretende querer nunca pode ser algo em particular, mas apenas uma ideia abstrata, e dar efeito a essa ideia só pode consistir na fúria da destruição.”

Esse parágrafo deveria ser meditado diariamente por todos os estudiosos e homens práticos interessados em compreender o mundo da política. Ele elucida não apenas a autofagia dos movimentos revolucionários, que sempre desencadeia guerras internas sangrentas, mas também explica como a falta de propostas e de agenda política pode provocar autofagia social, niilismo e criar movimentos que buscam exclusivamente a destruição da ordem vigente, sem que haja um projeto substitutivo. No fim das contas, para a direita, não há nada mais destrutivo do que não ter um plano: buscar a destruição pura e simples de um sistema que não foi compreendido e assimilado é adentrar um ciclo de destruição racionalista que, no fim das contas, não passa de barbárie com pose de coragem e inteligência.

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