
Publicado em 08 de Novembro de 2026
Há um cálculo que o governo não gosta de fazer: quantas horas um trabalhador precisa dispor para colocar comida na mesa. Nos discursos oficiais, a inflação desacelerou. Na vida real, o brasileiro continua assustado com os preços. Antes de pagar o aluguel, o ônibus, a luz ou a farmácia, boa parte do salário já se foi no básico.
O tomate, um dos alimentos mais comuns na mesa do brasileiro, ajuda a entender o tamanho do problema. Em São Paulo, o quilo já passa de R$ 20. O consumidor vê o preço, refaz a conta e leva menos do que queria, ou até deixa de levar. A culpa não é do supermercado ou do feirante. Depois do produto passar pela lavoura, pelo frete e pelo atacado, acumulando custos e perdas pelo caminho, quem vende no supermercado ou na feira acaba levando a bronca. Mas é aí que o brasileiro sente o peso dessa conta e percebe que o dinheiro some antes do fim da lista de compras.
Não é a primeira vez que o tomate vira o retrato da dificuldade do brasileiro. Em 2013, no primeiro governo Dilma, o fruto virou o símbolo da revolta contra a inflação. Em março daquele ano, o produto disparava 122% em 12 meses, enquanto o IPCA oficial marcava 6,5%. Virou capa de revista, meme, piada e arma da oposição. A cobrança era justa. Continua sendo. Quem ocupa a Presidência responde pelo custo de vida, por mais incômodo que o assunto seja para a propaganda oficial.
Em 1986, a revista The Economist inventou o Índice Big Mac para comparar moedas pelo mundo. Na rotina do brasileiro, o tomate impõe um indicador muito mais doloroso: quantas horas de suor custa um prato de comida?
Os números do DIEESE com a Conab escancaram o tamanho da dificuldade. Em setembro de 2026, a cesta básica na capital paulista bateu R$ 922,51 — a mais cara do país. Subiu 2,43% em um único mês e acumula 9,53% em 12 meses. Para quem ganha um salário mínimo, comprar esses mantimentos exige 125 horas e 12 minutos de trabalho. Isso significa entregar 61,5% do salário líquido só para comer – são mais de quinze dias inteiros de trabalho, em jornadas de oito horas, consumidos só para alimentação.
No Rio de Janeiro, a fatura exige 123 horas e 58 minutos; em Florianópolis, 124 horas. Em Fortaleza, a alta no ano passou de 15%. Na média nacional das capitais, o tempo necessário para pagar a cesta saltou de 98 horas em agosto para 102 horas em setembro.
O resultado atinge diretamente o discurso de quem se elegeu em 2022 prometendo combater a fome e baratear a comida na mesa. O presidente não controla o clima nem fixa o preço da prateleira na canetada, mas responde pelas políticas de abastecimento, pela logística, pelo apoio à produção e pela proteção da renda.
O brasileiro não precisa de estatísticas para saber quanto custa colocar comida na mesa. Ele sabe o que comprava antes, o que consegue comprar hoje e quantas horas precisa trabalhar para isso.
Em 2013, o tomate virou símbolo da insatisfação com o custo de vida. Treze anos depois, o problema continua presente na vida de milhões de famílias.
A realidade dura de quem passa mais da metade do mês trabalhando só para comer está muito distante do Brasil que o governo apresenta em seus discursos e tenta fazer desaparecer por trás de suas estatísticas.