
Publicado em 07 de Novembro de 2026
Esta semana, o Senado aprovou a PEC da Segurança Pública por 75 votos a zero. Em resposta, Lula foi rápido ao anunciar a criação de um novo ministério por medida provisória. Longe dos holofotes do poder, porém, milhões de brasileiros enfrentaram mais uma semana sob o controle direto do crime organizado. A urgência dos gabinetes parece distante da realidade de quem não sabe se poderá trabalhar, ficar em segurança dentro de casa, sair às ruas sem ser roubado ou fazer coisas simples como comprar água em paz.
Em Banabuiú, município de pouco mais de 17 mil habitantes no sertão do Ceará, a distribuição de água mineral passou a depender de escolta da Polícia Militar. Criminosos ligados ao Comando Vermelho circularam, a partir de 19 de outubro, um “edital” assinado pela chamada “Diretoria de Banabuiú”, condicionando a venda de garrafões ao pagamento de R$ 750 semanais por comerciante. Houve fechamento de estabelecimentos, paralisação de aulas por falta de água e filas na praça da matriz para adquirir um simples garrafão para abastecer a casa.
No Rio de Janeiro, a extorsão segue a mesma lógica. Em Vicente de Carvalho, criminosos pararam uma obra da prefeitura exigindo R$ 20 mil da empreiteira. Em Nova Iguaçu, a polícia investiga criminosos que cobram “taxa de segurança” de lojistas e condomínios, obrigando os moradores a comprar água e gelo de fornecedores indicados por eles. A família compra de quem o grupo manda e paga o preço que ele fixar.
Olhando de fora, é fácil dizer que é preciso denunciar. Mas pense no dono da loja em Banabuiú. Ele tem endereço conhecido, trabalha no mesmo balcão todos os dias e provavelmente mora a poucas ruas dali. O bandido sabe onde encontrá-lo. Se o comerciante for à delegacia hoje, amanhã terá de reabrir a loja. A família dele continua exposta. Antes de exigir denúncias, o Estado precisa responder quem vai proteger essa família quando a polícia for embora.
Prender quem aparece no balcão também não resolve: ele é substituído na semana seguinte. Quem organiza o esquema e fica com o dinheiro talvez não esteja nem no mesmo estado. É aí que o governo federal precisa dizer o que será feito. Quem vai investigar a lavagem desse dinheiro em conjunto com os estados? Quais recursos serão aplicados? E quem garante que a cobrança não vai voltar?
A escolta policial em Banabuiú fez a água chegar hoje. Para saber se o problema foi resolvido, basta conversar com o distribuidor na próxima entrega: ele consegue entrar na cidade sozinho? O comerciante aceita descarregar? Em Nova Iguaçu, pergunte ao morador se ele teve escolha sobre onde comprar o último garrafão. Quem vive sob o crime sabe a diferença entre o fim da ameaça e a obrigação de conviver com ela.
Lula foi ágil ao anunciar o ministério. Agora precisa apresentar metas, orçamento e prazos. Os senadores que votaram a PEC também têm responsabilidade e deveriam cobrar resultados com o mesmo empenho que tiveram na votação.
O comerciante de Banabuiú quer saber se vai poder abrir seu comércio. Os moradores de Vicente de Carvalho querem saber se as obras de saneamento serão concluídas. Os de Nova Iguaçu querem saber se vão conseguir comprar água de quem quiserem. Os mais de 60 milhões de brasileiros que, segundo o Datafolha, convivem diariamente com a ameaça das facções querem saber quando poderão ficar em casa ou andar na rua sem medo. São questões muito mais importantes do que saber o nome do novo ministro.