Rito democrático e democracia real

Publicado em 06 de Novembro de 2026

O Brasil tem todas as instituições e ritos de uma democracia, mas o povo não goza de nenhum poder. Há constituição, partidos, eleições periódicas, imprensa supostamente livre e tribunais em pleno funcionamento. Mas esses traços jurídico-formais são comuns tanto às democracias saudáveis quanto às que beiram o colapso. O que distingue uma da outra não está no rito, e sim na substância: a concorrência efetiva e isonômica entre grupos políticos que almejam chegar ao poder para executar seu projeto de nação. Quando tal disputa é substituída pelo controle monopolista do Estado, da cultura e da mentalidade pública, o que resta é o molde, e, quanto mais grave o quadro, mais confortável está o partido que busca a hegemonia.

Uma democracia real, porém, não se sustenta apenas sobre regras e processos. É preciso que, na estrutura social em que a democracia está fundamentada, o cidadão seja forte e tenha meios de reagir diante das instituições, o que geralmente acaba criando uma classe média, um intermediário entre a população incapaz de atuar politicamente e a elite. É ela que tem patrimônio próprio, renda gerada sem favores da máquina pública, tempo para se informar e meios para se organizar na associação, na igreja, no sindicato livre, na câmara de comércio. São esses poderes intermediários que comprovam que uma sociedade política tem, de fato, uma democracia saudável.

O sufocamento atual que acomete a classe média não parece ser efeito colateral de uma política econômica ruim ou de equívocos de gestão. Amassar a classe média é um pré-requisito para um projeto de sociedade de duas classes, uma necessidade para consolidar um regime em que não existam cidadãos com possibilidade de reagir aos desmandos e às arbitrariedades do poder. O pequeno empresário esmagado pelo labirinto tributário, o profissional liberal que vê a renda corroída ano após ano, a família que parou de pensar em projetos a realizar e passou a ocupar-se exclusivamente de sobreviver até o fim do mês: todos são empurrados para a mesma condição de fragilidade diante do poder político, todos perdem capacidade de atuação na arena pública. É característico das democracias do Ocidente o fortalecimento dos cidadãos, por meio da proteção da propriedade privada, da isonomia diante do aparato estatal e do acesso a recursos materiais para a sobrevivência e a autodefesa.

Um bom exemplo foi a transição do modelo de guerra na Grécia Antiga, que, graças à prosperidade econômica e à possibilidade de os cidadãos comuns se armarem, saiu do combate individualizado e heroico da aristocracia para a infantaria pesada, conhecida como falange hoplita. Antes, os campos de batalha eram dominados por uma pequena elite nobre que podia custear cavalos e armaduras caras, priorizando duelos singulares e a busca pela glória pessoal. Com o barateamento da metalurgia, uma crescente classe média de proprietários de terras conseguiu adquirir sua própria panóplia (armadura) e o hoplon (um grande escudo redondo), mudando radicalmente a tática militar.

Um regime em que a classe média perde sua capacidade de atuar na vida política pode ser considerado uma democracia pujante?

Uma democracia que tantas vezes foi salva e parece ser tão cara à elite nacional deveria dar frutos, exibindo uma classe média que reequilibre o jogo político.

Esse parece ser o caso do Brasil?

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