
Publicado em 04 de Novembro de 2026
A cena, já conhecida de todos os brasileiros, repete-se com regularidade ritualística, quase que como uma liturgia da religião petista. Lula sobe ao palanque e, em tom de urgência e com trejeitos espalhafatosos, acusa o ouvinte de não enxergar o óbvio: o povo tem fome, o povo não consegue se alimentar, o povo precisa de auxílios governamentais com urgência existencial. A cena pretende demover o ouvinte por meio da compaixão, mas carrega uma acusação incrustada. Quem não se comove na medida exigida passa a ser suspeito de ódio contra os pobres. E quem pergunta pelo resultado de duas décadas de assistencialismo vira inimigo da sacra caridade que o petismo faz com o dinheiro do contribuinte.
Essa perspectiva produz um discurso que fratura o Brasil e cria uma divisão inconciliável entre os petistas e o restante dos brasileiros, principalmente o cidadão comum.
De um lado, uma elite que pretende administrar a sociedade por meio de uma casa de máquinas com poder para alterar hábitos, costumes e crenças, e que sustenta uma massa de coitadinhos incapazes — sem em momento algum se perguntar se eles querem sair dessa situação —, cuja sobrevivência dependeria da mão generosa do partido.
Do outro, uma suposta articulação fascista, inimiga do PT e, por extensão, dos desvalidos que só ele saberia proteger. Não sobra espaço para o brasileiro de carne e osso que trabalha, paga imposto, se organiza no bairro, na igreja ou na associação e pretende decidir algo sobre a própria vida.
Não se trata de um orador com vícios de linguagem nem de um ímpeto isolado de sufocar toda a vida comum de uma nação para que ela se torne instrumento de seu projeto de poder. Longe disso, Lula é a cereja do bolo, a representação de todo um sistema atuante no Brasil. Todas as vozes públicas do partido recorrem ao mesmo apelo com o mesmo objetivo: criminalizar qualquer ameaça ao poder hegemônico petista.
A pretensão, negada com veemência, é criminalizar a própria cidadania e a atuação política contra o partido. Os documentos do partido falam por si. O avanço conservador é tratado como “sinal de alerta”, e a resposta é formar quadros e candidaturas em escala industrial. A sociedade civil que se articula fora da tutela partidária não é vista como vida em comum, mas como perigo a ser contido.
O ideal implícito é uma massa de contribuintes indefesos diante do aparato de poder, que sustenta a república com o suor do seu trabalho sem ter poder de escolha nos rumos da nação. Algo próximo da escravidão na Roma antiga, em que o escravo sustentava a casa com seu trabalho sem jamais sentar à mesa onde se decidia o destino dela.
Ao povo é sonegada a possibilidade de prosperar, rebelar-se contra o partido ou mesmo questionar suas ações. Mesmo assim, esse partido, que combate os movimentos orgânicos da sociedade civil e tenta a todo custo sufocar as insatisfações naturais da população, diz-se defensor da soberania brasileira.
Paradoxal, pois o partido combate a própria sociedade brasileira: desarmou-a, taxou seus ganhos e promove uma guerra contra seus costumes e sua religião.
Estaria o PT, na verdade, defendendo a soberania do partido sobre a população, em vez de defender a soberania nacional?