O dinheiro que falta 

Publicado em 1º de Novembro de 2026

Há uma cena comum no comércio. O movimento até pode melhorar, mas o comerciante continua adiando a reforma, a compra de equipamentos e novas contratações. Vende, paga fornecedores e sobra menos do que esperava. Quando precisa recorrer ao banco, entende o porquê.

Em setembro, os juros médios do crédito chegaram a 32,36% ao ano. A Selic está em 13,75%, e o Brasil voltou a liderar um levantamento de taxa de juros reais entre 40 países. Esses números fazem parte da decisão diária de abrir ou não uma nova loja, ampliar uma fábrica ou manter o negócio do tamanho que está.

O problema começa antes do empréstimo. O empresário precisa acreditar que haverá clientes com dinheiro para comprar. E os clientes também estão fazendo contas. A inadimplência do crédito chegou a 4,98% em setembro. Quatro anos antes, no mesmo mês, estava em 2,92%. O endividamento das famílias já ultrapassa metade da renda acumulada em doze meses, segundo o Banco Central. Cada compra parcelada encontra outras parcelas na fila das faturas.

O orçamento doméstico ajuda a explicar essa dificuldade. Em São Paulo, a cesta básica se aproximou de mil reais. São necessárias 125,2 horas de trabalho para comprá-la. É uma parcela considerável do mês dedicada apenas aos alimentos essenciais. Ainda faltam moradia, transporte, energia, medicamentos e todas as outras despesas que não esperam o próximo pagamento.

Essa falta de espaço aparece também nas grandes empresas. A Raízen anunciou um plano para enfrentar sua crise financeira, com previsão de injeção de até R$ 39,8 bilhões. Um fundo imobiliário reduziu a projeção de dividendos após inadimplência da Casas Bahia. A Oncoclínicas atualizou seu plano de recuperação extrajudicial. Cada caso tem causas próprias. Juntos, ajudam a entender por que o custo do dinheiro e a capacidade de pagar dívidas passaram a ocupar tanto espaço nas decisões empresariais.

É nesse ambiente que o governo deveria medir cada compromisso assumido. Mas as estatais federais fecharam setembro com déficit primário de R$ 2 bilhões, o pior resultado para o mês na série do Banco Central. O indicador não corresponde, necessariamente, a prejuízo contábil. Ainda assim, é um resultado pelo qual a administração federal deve responder. Se uma estatal precisa de aporte do Tesouro, a conta passa pelo orçamento e alcança o contribuinte. E, quando há garantia pública para um empréstimo – como na operação de empréstimo de R$ 7 bilhões discutida para os Correios –, o risco também fica com o poder público. O prejuízo da estatal foi de R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre. 

O governo costuma apresentar cada anúncio pelo benefício prometido. Raramente a discussão começa pelo custo total, pelo prazo e pela fonte dos recursos. Só que essas informações definem quanto espaço haverá para os compromissos seguintes. Num país de juros elevados, dívida pública pressionada e empresas com dificuldade de financiamento, tratar o orçamento como detalhe tem consequências fora de Brasília.

O comerciante do início desta história não pode emitir dívida pública, criar um tributo nem pedir que a população cubra seu prejuízo. Se errar na conta, fecha as portas. O governo dispõe de instrumentos que nenhum cidadão possui. Justamente por isso, deveria ser o primeiro a explicar o destino de cada real.

A economia brasileira não precisa de mais uma apresentação otimista. Precisa que as contas sejam tratadas com a seriedade que já é exigida, todos os dias, de quem vive do próprio trabalho.

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