
Publicado em 30 de Outubro de 2026
A eleição terminou, mas os dois maiores problemas da vida dos brasileiros continuam sem solução: a economia e a violência. Lula terá mais quatro anos no Planalto, depois de um mandato em que a dívida pública disparou e o crime organizado ampliou sua presença em atividades legais. Ele conhece esses problemas, conhece a máquina pública e terá de responder pelos resultados de sua própria administração.
Na economia, os números são mais que preocupantes. A dívida bruta chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, o equivalente a 82,9% do PIB. São mais de 11 pontos percentuais de aumento durante o terceiro mandato de Lula.
O país gastou R$ 1,18 trilhão com juros da dívida nos 12 meses encerrados em agosto. No mesmo período, o déficit nominal chegou a R$ 1,26 trilhão. São números que ajudam a explicar a dificuldade de reduzir os juros e recuperar a confiança de quem investe, produz e emprega.
Durante a campanha, Lula anunciou benefícios sem apresentar um plano detalhado para financiá-los. A Instituição Fiscal Independente do Senado estimou em quase R$ 300 bilhões o impacto das medidas lançadas no período eleitoral, incluindo estímulos de crédito e renúncias fiscais.
A reação do mercado depois da eleição foi imediata: queda da Bolsa, alta do dólar e avanço dos juros futuros. O governo terá de lidar com a desconfiança e apresentar medidas concretas. Afinal, crédito caro compromete investimentos, contratações e o orçamento das famílias.
Nas estatais, os Correios são o exemplo mais evidente. Depois de perder R$ 8,5 bilhões em 2025 e outros R$ 5,6 bilhões no primeiro semestre de 2026, a empresa recebeu aval para contratar mais R$ 7 bilhões em empréstimos com garantia do Tesouro. Outros R$ 12 bilhões já haviam sido garantidos em 2025. Se a estatal não pagar, a obrigação será assumida pelo contribuinte.
Na segurança pública, os números revelam outra realidade alarmante. Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 68,7 milhões de brasileiros com mais de 16 anos percebem a presença de facções ou milícias perto de suas casas. São 41,2% da população pesquisada. Nas capitais, o percentual chega a 55,9%.
O crime organizado também se tornou uma potência financeira. A Operação Carbono Oculto identificou R$ 52 bilhões movimentados entre 2020 e 2024 por postos de combustíveis ligados a um esquema investigado por lavagem de dinheiro. A Receita Federal identificou ainda pelo menos 40 fundos de investimento, com patrimônio de R$ 30 bilhões, sob controle da organização investigada.
As facções já atuam muito além do tráfico. Investigações alcançam transportes, combustíveis, empresas e serviços essenciais. Em comunidades do Ceará e do Rio de Janeiro, há denúncias de criminosos cobrando taxas de comerciantes e moradores até pelo fornecimento de água.
Enquanto organizações criminosas ampliam seus negócios, o governo fala em criar um Ministério da Segurança Pública. Uma nova estrutura administrativa não enfrenta, por si só, redes que movimentam bilhões. O país precisa de investigações permanentes, controle de fronteiras, fiscalização financeira e operações capazes de atingir o patrimônio e as lideranças dessas organizações.
Lula dispõe da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e dos instrumentos federais de inteligência e investigação. Precisa explicar como pretende utilizá-los para produzir resultados mais consistentes. Também terá de mostrar de onde sairão os recursos para as novas propostas anunciadas na área.
O problema é que o governo começa outro mandato precisando encontrar dinheiro para suas promessas, controlar uma dívida crescente e enfrentar organizações criminosas que já interferem na economia e na rotina de milhões de pessoas.
Lula não é um presidente que está chegando agora. Governou o país durante três mandatos e terá um quarto pela frente. A experiência que costuma apresentar como credencial também aumenta sua responsabilidade pelos problemas que permanecem.
O brasileiro precisa de emprego, renda, crédito acessível e segurança para viver e trabalhar. Já ouviu promessas suficientes.
A eleição garantiu a Lula mais quatro anos de poder. O país precisa saber quanto tempo ainda terá de esperar por resultados.