O Brasil no espelho

Publicado em 27 de Outubro de 2026

Por vezes, no Brasil, é comum que seus cidadãos sintam que há um elemento faltante, uma ausência, algo que impede o pleno desenvolvimento da nação.

No nosso debate público, as causas apontadas são a falta de democracia, progressismo e desenvolvimento econômico. É claro que a forma de chegar a esses “bens” pode variar, mas o quadro imaginativo de nossas vozes públicas não foge muito desse parco repertório.

Diante de uma discussão tão abstrata — às vezes alucinada e delirante —, distante do cidadão comum e de seus valores, a população não consegue captar com clareza o que se passa na nação e muito menos identificar-se com esse debate público.

Também é visível que a arte, a literatura e a música já não fazem parte de um esforço para que os brasileiros tenham uma imagem clara do Brasil e de si mesmos, e essa autoimagem produzida pela cultura é uma ausência tão forte que deixa uma lacuna em nossa nação.

Um país não pode sobreviver por muito tempo sem alguma vida intelectual na qual ele se enxergue e se reconheça como unidade histórica, cultural e espiritual. Isso falta totalmente no Brasil de hoje. As discussões públicas entre pessoas supostamente letradas perdem-se em fatos isolados, em tagarelice ideológica sem nenhum proveito ou na exteriorização fortuita de impressões sentimentais grupais totalmente alienadas. Já não apreendem nem captam a nação como conjunto, muito menos a sua situação no mundo, na civilização, na História etc. 

O Brasil tornou-se invisível a si mesmo — não como se o Brasil e sua história fossem um vidro transparente, mas porque a escuridão se apossou do ambiente —, e na treva geral crescem monstros e aberrações. E, por mais desconfortável que possa ser a afirmação, o pior e mais feio desses monstros é justamente a esperança de livrar-se de todos os outros a curto prazo, mediante ações práticas na esfera política, saltando sobre a necessidade prévia da restauração do debate público nacional e da reabilitação da inteligência geral do povo. 

Nenhum ser humano ou nação está mais louco do que aquele que acredita poder resolver todos os seus problemas primeiro, para tornar-se inteligente depois. A inteligência não é o adorno do vitorioso, é o caminho da vitória. Não é a cereja do bolo, é a fórmula do bolo.

A resolução dos problemas políticos do país, sem dúvida, passa pela politização do povo brasileiro e pela qualificação de sua elite política.

Enquanto essa tarefa for adiada, o establishment seguirá governando no escuro — e a casa de máquinas, protegida pela confusão geral, continuará a ditar o rumo da nação sem prestar contas a ninguém.

Politizar o povo não é doutriná-lo, mas cultivar a capacidade de nomear o que vive: a asfixia tributária, o empobrecimento programado, a quebradeira do setor produtivo. 

Ou seja, dar instrumentos para que reconheça e descreva sua realidade, estabeleça sua identidade e compreenda a dinâmica da política nacional.

Uma elite política qualificada deve saber transitar entre os dramas vividos cotidianamente pela população e as complexidades da administração pública e do exercício do poder. Mas essa lacuna, essa ausência, só pode ser resolvida através do fomento da reconstrução da cultura nacional e da politização do cidadão comum.

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