O jogo só acaba quando termina. O marketing e os eleitos deveriam saber disso.

Publicado em 13 de Outubro de 2026

A complacência continua sendo o veneno mais rápido da política. As pesquisas recentes mostram Flávio Bolsonaro abrindo vantagem e o resultado anima. Mas vantagem em pesquisa não é eleição ganha, e quem se acomoda costuma pagar um preço alto. Parece que a equipe de marketing e parte dos aliados esqueceram quem está do outro lado: um adversário que não joga limpo, não respeita regras e fará de tudo para não entregar o poder — deixando Flávio exposto a uma máquina que não perdoa passividade.

A disputa segue no modelo Davi contra Golias. De um lado, o peso desproporcional da máquina estatal e o uso sem pudor dos recursos do poder; do outro, Flávio, que carrega a esperança de milhões de brasileiros e depende da mobilização real. A engrenagem petista opera sem escrúpulos: inunda o ambiente digital, fazendas de robôs inflam redes, ônibus fretados enchem atos e artistas pedem voto do conforto do Leblon.

Essa mobilização fabricada não tem a firmeza do voto orgânico do bolsonarismo — aquele que nasce da convicção, da conversa em família, da dor no bolso e do medo da violência. Ainda assim, cumpre o papel: gera cortes para o WhatsApp, produz manchetes e passa uma falsa sensação de força, amplificada pela boa vontade habitual da imprensa. Enquanto Flávio enfrenta sozinho, em muitos momentos, o volume de ataque que deveria ser contido por uma estrutura mais ativa.

O brasileiro comum tem feito a parte dele. Enfrenta a violência, os juros altos, vota, compartilha e conversa. Essa base é a espinha dorsal da campanha. Flávio está ao lado desse eleitor como vítima da mesma passividade: ambos dependem de uma estrutura que deveria entregar respaldo e, em muitos casos, não entrega.

As publicações do lado de lá surgem sem parar e com jogo sujo. A resposta precisa ser no mesmo volume e velocidade. O eleitor de ponta — e o próprio Flávio — precisa de munição diária: conteúdo rápido, desmentidos prontos e narrativas afiadas antes que as calúnias se consolidem. Mentiras requentadas sobre o Bolsa Família ou montagens grosseiras de inteligência artificial não podem circular sem contra-ataque imediato. Tratar o adversário como um concorrente comum é um erro infantil.

A cobrança sobre governadores, senadores e deputados deve ser implacável. Com o mandato garantido, muitos recolheram as bandeiras e saíram de cena. Não foram eleitos para assistir ao segundo turno do conforto do camarote, mas para defender um projeto de nação e não deixar Flávio isolado. O eleitor que votou em cada um deles agora espera empenho concreto por Flávio. Onde estão? Enquanto o adversário se expõe, publica e mobiliza todas as forças, a omissão de quem tem mandato, estrutura e palanque é inaceitável. Com 33,4 milhões de abstenções no primeiro turno, encarar o cenário como fatura liquidada contra um grupo disposto a tudo para vencer é erro estratégico primário — e a maioria dos eleitos sabe disso. Cada pesquisa favorável deve servir de combustível para buscar o eleitor que faltou e mostrar por que vale a pena ir às urnas.

A estrutura petista pode ter mais recursos e agir sem escrúpulos. A força orgânica do eleitorado bolsonarista é o grande diferencial. Se a equipe de comunicação entregar o respaldo necessário e os políticos eleitos saírem da zona de conforto, a vitória no segundo turno tem tudo para se consolidar. Mas o jogo só acaba quando termina. E, numa disputa tão difícil, todo mundo precisa dar um pouco a mais e provar que realmente quer a mudança — não apenas cuidar do próprio umbigo.

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