
Publicado em 11 de Outubro de 2026
Quem não cuida das contas não cuida das pessoas. A frase de Marcelo Kayath, ex-diretor do Credit Suisse e cotado para comandar a Fazenda num eventual governo de Flávio Bolsonaro, resume uma verdade que o Brasil parece ter esquecido. A irresponsabilidade com o dinheiro público chega à vida das pessoas na forma de juros altos, crédito caro, investimentos adiados e oportunidades perdidas. A conta acaba chegando justamente a quem tem menos condições de pagá-la.
Os governos petistas que sempre se apresentaram como defensores dos mais pobres deixaram o país com uma dívida pública gigantesca e milhões de famílias endividadas. Prometeram proteção, ampliaram gastos e preservaram privilégios. Os programas sociais alcançaram milhões de pessoas, mas não foram acompanhados de oportunidades suficientes para que essas famílias conquistassem autonomia financeira.
É justamente nesse ponto que as ideias de Kayath merecem atenção. Ele reconhece que quem recebe Bolsa Família ou BPC não é o problema do Brasil. Essas pessoas precisam de proteção, e uma política econômica responsável não pode simplesmente abandoná-las à própria sorte. O problema está num Estado que gasta mal e transfere o custo de sua ineficiência para a população. Por isso, Kayath defende começar pelo andar de cima: enfrentar supersalários, penduricalhos, fraudes e desperdícios nos três Poderes. Num país tão desigual, o ajuste não pode começar por quem já tem tão pouco.
Um freio de arrumação temporário, gradual e cirúrgico. O objetivo é recuperar a confiança na economia, criar condições para a redução dos juros e permitir que o Brasil volte a crescer de maneira consistente. É o crescimento que amplia investimentos, gera empregos, aumenta a arrecadação e ajuda a estabilizar a dívida. Não se combate juros altos com reclamações contra o Banco Central ou decisões tomadas na base da canetada. É preciso enfrentar as causas do problema.
Essa preocupação com as consequências sociais do ajuste parece incomodar uma parcela dos liberais, que já começou a gritar. Para alguns, qualquer proposta que não comece por cortes imediatos soa como uma concessão inaceitável. Como se o Brasil fosse uma planilha e milhões de brasileiros fossem apenas números de um exercício de austeridade. Ignoram que cortar por cortar pode até melhorar indicadores no curto prazo, mas não resolve os problemas estruturais do país.
Kayath também rejeita o papel de Posto Ipiranga. Prefere falar em equipe, metas claras, gestão eficiente e articulação política.
Há algo de verdadeiramente antissistema nessa postura. Afinal, enfrentar privilégios que sobrevivem há décadas e exigir responsabilidade de quem governa antes de cobrar sacrifícios de quem trabalha, produz e paga impostos significa contrariar interesses poderosos.
Talvez seja isso que falta para o Brasil devolver à população a perspectiva de prosperar pelo próprio esforço. O sucesso de uma política econômica precisa aparecer no emprego, na renda, no crédito mais acessível e na possibilidade de uma família construir um futuro melhor.
É esse o sentido da frase de Kayath. Cuidar das contas públicas é cuidar do dinheiro de quem trabalha, das oportunidades de quem empreende e do futuro de quem depende das decisões do governo. Parece óbvio. E é. Mas, num país tão maltratado por quem deveria cuidar dele, o óbvio precisa ser dito.