O indefensável padrão de desprezo

Publicado em 29 de Setembro de 2026

Ontem à noite, Lula falou sobre meninas estarem acostumadas com toques desde pequenas. A frase saiu em público e tratou o contato físico com o corpo de crianças como algo natural, esperado, quase rotineiro. Uma declaração que quase normaliza o que deveria ser protegido com rigor absoluto.

Essa fala se soma a outras. Em julho de 2024, em Recife, o presidente contou a história de um beneficiário do Minha Casa Minha Vida e disse: “Ele se casou com a menina, e ela tinha 12 anos e ele está apaixonado por ela há 28 anos.” Uma criança de 12 anos apresentada como esposa. Uma relação que a lei chama de estupro de vulnerável transformada em exemplo de fidelidade e carinho familiar. A gravidade desapareceu diante da narrativa de amor e perseverança.

Poucos dias depois, no Palácio do Planalto, o mesmo presidente ouviu que a violência contra a mulher aumenta depois de jogos de futebol e respondeu: “Se o cara é corintiano, tudo bem.” A violência doméstica virou piada de torcida. A dor de mulheres agredidas tratada em tom de brincadeira.

Em maio, diante de uma mulher de 27 anos com cinco filhos, ele disse: “Quando é que vai fechar a porteira?” O presidente da República se intrometeu no útero de uma mulher pobre como se tivesse o direito de decidir quantos filhos ela pode ter.

Em março, explicou que mulher com profissão não precisa pedir dinheiro ao pai “para comprar batom” ou “calcinha”. A independência feminina reduzida a batom e calcinha. A dignidade de uma mulher transformada em detalhe de consumo.

Em 2022, ainda candidato, Lula afirmou: “Quer bater em mulher? Vá bater em outro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil.” A violência não foi condenada. Foi apenas deslocada. Como se o problema fosse o local e não o ato.

Anos antes, em entrevista, ele contou que monitorava “viuvinha bonitinha” no sindicato e que, ao saber que o marido de uma mulher havia morrido, pensou: “Qualquer dia eu vou papar a nora desse velho.” A mulher vista como objeto a ser “papado”. A viúva transformada em oportunidade.

Essas falas formam um padrão de desprezo. Um padrão que trata o corpo de meninas e de mulheres com leveza, com humor e com controle. Um padrão que transforma criança de 12 anos em esposa, violência doméstica em piada e mulheres pobres em território de decisão alheia.

Nenhuma dessas declarações ocupou as capas dos grandes portais com a gravidade que mereciam. A militância relativizou, descontextualizou e transformou a crítica em ataque político. O silêncio seletivo e a rapidez das desculpas se repetiram a cada nova frase.

Os números mostram a realidade. A cada hora, quatro meninas menores de 13 anos são estupradas no Brasil. Em 86% dos casos o agressor é conhecido. A maioria dos crimes acontece dentro de casa. Mulheres são agredidas, ameaçadas e mortas todos os dias. E o presidente da República fala de toques em meninas como algo natural, de casamento com menina de 12 anos como história de amor, de violência doméstica como brincadeira de torcida e de mulheres pobres como se o útero delas fosse assunto de Estado.

Essas frases não deveriam sair da boca de ninguém. Muito menos da boca do presidente da República. Elas foram ditas em público, em eventos oficiais, com câmeras ligadas.

Imagine se isso saísse da boca de algum adversário de Lula.  

Domingo não é só um voto, é a oportunidade de resgatar o Brasil das mãos de quem normaliza o que deveria ser protegido e relativiza o que deveria ser condenado.

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