
Publicado em 29 de Agosto de 2026
Existe uma piada antiga onde o paciente diz ao doutor que toda vez que ele aperta o pé, o pé dói – e o médico dá, como solução, parar de apertá-lo. Miriam Leitão, Lula e boa parte da esquerda usaram, e usam, da mesma tática para tentar explicar tanto os preços quanto a perda do poder de compra do Brasileiro: as coisas parecem caras porque o hábito do brasileiro mudou e porque “estamos comprando mais coisa”. São dois diagnósticos com um recado só: se a dor é sua, a culpa também deve ser.
Na sabatina do Jornal Nacional, Lula entregou a parte que faltava. Perguntado sobre a dívida pública, que beira 82% do PIB, respondeu que isso não o preocupa e comparou o Brasil com Estados Unidos, Japão e Itália – países muito mais ricos, logo, com mais capacidade de aguentar crises. Quando perguntado se cortaria despesas obrigatórias, desconversou completamente. Soou como uma reprise das entrevistas de Dilma Rousseff.
A carestia que o brasileiro sente não é uma falha de percepção, mas a fatura de anos de gasto público chegando pelo caminho mais caro, os juros. O Banco Central elevou a Selic a 15% ao ano, a maior em quase duas décadas, porque alguém tem que segurar a demanda criada pelo Tesouro. Quem paga esse pato não é o governo, mas a farmácia da esquina, a loja de material de construção do bairro, os empregadores do país.
O Brasil fechou 2025 com 2.466 empresas em recuperação judicial, recorde da série, e entrou em 2026 com 8,7 milhões de CNPJs negativados. Recuperação judicial é o pedido de tempo de quem ainda funciona. Quando um terço desses pedidos acaba em falência, o tempo não resolve nada, porque cada porta que fecha leva emprego e crédito.
Em julho, 82% das famílias estavam endividadas, sexto recorde seguido na CNC. No mesmo mês, o brasileiro tirou da poupança R$ 7 bilhões do que havia depositado. É o brasileiro cobrindo a conta do mês com a reserva de uma vida.
Esse arranjo já foi testado aqui, entre 2011 e 2014. O emprego crescia, a renda subia, combustível e luz eram segurados na canetada e a contabilidade do Tesouro dava um jeito no resto. A fatura foi apresentada em 2015: inflação de dois dígitos, tarifa explodindo e a pior recessão em oitenta anos. Ninguém chamou aquilo de sensação, não tinha como.
O buraco está ficando visível a olho nu. A dívida pública passou de R$ 10 trilhões e subiu mais de dez pontos do PIB desde 2023, com commodity em alta e arrecadação recorde. Quando o presidente diz que isso não o preocupa, avisa que o gasto vai continuar.
O assalariado do setor privado, o autônomo, o motorista de aplicativo e o dono da papelaria não têm um índice que corrija a renda deles, e recebem a conta em juro no cartão, aluguel reajustado e preço alto nas prateleiras do mercado. No primeiro semestre a cesta básica subiu nas 27 capitais, puxada por arroz, feijão, carne e leite, os quatro itens que ninguém tira da lista.
O discurso da sensação pode funcionar em ano eleitoral porque a bomba ainda está para explodir. Mas a conta está chegando aos poucos, em juros, em empresas fechadas e salários que não rendem mais para o básico. Ou o Brasil mostra que tem coragem de mudar ou vamos passar os próximos quatro anos recebendo sermão de educação financeira dos porta-vozes da imprensa.