As vantagens de entrar pela porta dos fundos

Publicado em 25 de Agosto de 2026

Existe um Brasil em que o cidadão comum precisa de alvará para vender pipoca. Precisa de licença, documento, taxa, fiscalização e paciência. E existe outro, bem mais silencioso, em que a proximidade com o poder pode abrir portas que permanecem fechadas para quase todo mundo.

É nesse segundo Brasil que aparece o grupo de WhatsApp chamado “Musaranhos”. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Fernando Bittar eram os “Musos”. Roberta Luchsinger, a “Musa”. Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela VEJA, o grupo era usado para discutir negócios e maneiras de acessar o governo.

Roberta não parecia esconder o grau de intimidade com o poder. Em uma conversa, escreveu: “Eu sou o Fábio.” Em outra, afirmou: “Somos governo. Tem que pedir tudo e fazer.”

O negócio que aparece nas investigações envolvia produtos à base de canabidiol e a tentativa de viabilizar um contrato de grande valor junto ao governo. O contrato não chegou a ser concretizado. Mas a Polícia Federal investiga se houve tráfico de influência e articulação para abrir caminho a interesses privados dentro da máquina pública.

E então surge outro personagem: Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, investigado na roubalheira das aposentadorias. Em novembro de 2024, ele e Lulinha viajaram juntos a Portugal para conhecer uma empresa de cannabis. Na época, poderia parecer apenas uma viagem de negócios. Hoje, diante do conteúdo das investigações, a viagem ganhou outro significado.

Também aparecem nas apurações pagamentos e movimentações financeiras em espécie. A PF investiga, entre outras coisas, despesas pessoais de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, que teriam sido pagas por Roberta – jóias e até obras de arte.

As defesas negam irregularidades. Se não há nada de errado como alegam, o processo precisa esclarecer o que eram relações pessoais, o que eram negócios e, principalmente, onde começava a influência sobre o governo e o que isso gerou de vantagens.

Roberta também teria afirmado que Lula a chamou para perguntar onde gostaria de ficar no governo. Segundo ela, respondeu que preferia continuar “na minha sociedade com Fábio e Fernando”. O Planalto afirma que o presidente não a conhece. Se as duas versões forem colocadas lado a lado, quem está dizendo a verdade?

As investigações ainda registram conversas sobre tirar Lulinha do país, com referências a Madri, Suíça e Liechtenstein – onde é impossível “prender o dinheiro” segundo a própria Roberta. Lulinha acabou indo para Madri. Isso não prova por si só qualquer irregularidade, mas ajuda a explicar por que as mensagens despertaram a atenção dos investigadores.

O nome de Fernando Bittar, citado na investigação, também carrega uma história conhecida. Ele foi um dos proprietários formais do sítio de Atibaia, frequentado por Lula e que esteve no centro de uma das principais investigações da Lava-Jato.

O que torna o caso dos Musaranhos tão incômodo não é apenas uma mensagem ou uma viagem. É a possibilidade de existir um método: o poder que não precisa de cargo, empresa formal ou assinatura. Basta proximidade, acesso e a certeza de que alguém atenderá o telefone.

Para o cidadão comum, o Estado tem guichês, protocolos, taxas e obstáculos.

Para quem conhece a pessoa certa, talvez tenha uma porta dos fundos. E entrar pelos fundos, nesse caso, não é demérito, é estratégia.

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