O Vazio da Defesa: Quando a Classe Política Já Enterrou Bolsonaro Antes do Julgamento

Publicado em 26 de Agosto de 2025

Daqui a uma semana acontecerá o julgamento de Jair Bolsonaro. Em vez de movimentos em sua defesa, Brasília respira normalidade. Os caciques partidários circulam por reuniões e jantares discutindo cargos e ministérios, como se a decisão já estivesse tomada. A sucessão ocupa o espaço que deveria ser de solidariedade política.

O silêncio não é acaso. Ele cumpre papel estratégico: evita atritos com o Judiciário e, ao mesmo tempo, abre caminho para negociações de bastidores. É conveniência pura. A mensagem é clara — não vale gastar energia em defesa de Bolsonaro, mas vale preparar o terreno para administrar os efeitos da sua possível condenação.

A conta é simples. Bolsonaro continua forte como ativo eleitoral, mas passou a ser tratado como risco institucional. Serve para transferir votos, não para liderar. O sistema quer a herança sem o herdeiro. Esta lógica revela como opera a engrenagem política: aproveita-se a força de uma liderança popular, mas ela mesma pode ser descartada quando se torna incômoda.

Nesse rearranjo, ganha espaço o perfil moldado para se encaixar no sistema: gestor disciplinado, falas técnicas, discurso moderado, confiável para o mercado e inofensivo para as instituições. Tal figura é tratada como solução responsável, o sucessor aceitável que garante continuidade sem sobressaltos. O julgamento de Bolsonaro funciona, nesse sentido, como um divisor que abre espaço para esse substituto planejado.

O contraste salta aos olhos. De um lado, a liderança que arrastou multidões, hoje cercada por um silêncio calculado. De outro, a alternativa cuidadosamente construída para não incomodar. A Justiça ou a proporcionalidade da pena quase não entram em pauta. O assunto real é a ocupação do espaço deixado.

Essa escolha deixa claro o que move os caciques: oportunidade acima de lealdade. Bolsonaro é colocado na condição de passado antes mesmo de ser julgado. O esforço não está em defendê-lo, mas em disputar sua herança eleitoral.

O silêncio, nesse caso, fala mais alto que qualquer discurso. Ele mostra a distância entre a base popular e as cúpulas partidárias. O eleitor segue vivo, mas sua representação é tratada como ativo em mesa de negociação, longe de qualquer debate público.

Não é uma omissão inocente. É um cálculo político. Os caciques decidiram que é mais seguro deixar uma liderança incômoda ser eliminada pelo processo judicial e substituí-la por alguém feito sob medida para o sistema.

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